A Borrifar Bactérias

Pedir aos enfermeiros para desconvocar a greve porque há um surto de legionella é sintomático da incapacidade de quem governa este país proporcionar o bem estar da população. A greve dos enfermeiros é justamente – e há 2 anos que chamam a atenção para isto – para lembrar que a gestão de serviços públicos não pode ser feita com serviços mínimos, escassa mão de obra, gente exausta, que se sucede em turnos e salários de sobrevivência/manutenção. Para além de algo que não tem valor – o bem estar dos profissionais do SNS – há outras coisas que têm um valor económico muito importante e que se centram na contabilidade equilibrada dos custos prevenir/tratar – é sempre mais caro tratar do que prevenir, é sempre mais caro resolver os erros do que impedi-los. Nos serviços públicos e privados há uma série de profissões ditas “inúteis” que são os de prevenção, de manutenção, de fiscalização, etc. Num país bem gerido há enfermeiros a mais para situações de emergência, que às vezes estão para ali a jogar “paciências”. Como há fiscais de higiene e segurança no trabalho, daqueles que vão ver uma fábrica e depois não têm muito para fazer e vão comer uns tremoços – tremoços saborosos e muito mais baratos do que a conta do SNS de tratar 300 doentes com legionella, já para não referir o custo de perda de vidas, que não tem preço. Num país bem gerido também não há torres de refrigeração a vaporizar a população com bactérias. E que fique de alerta a quem acha há 5 anos, há 10, há 15, que isto agora é que vai ficar melhor, os indicadores são bons, o défice desce e outros pensamentos mágicos: isto só vai piorar enquanto prevalecer a política de que os impostos servem para remunerar activos falidos em vez de servirem para garantir serviços à população. Feitas as contas isto não é um crime ambiental que num qualquer relatório daqui a 2 anos vai aparecer como “erro humano” – é uma coisa mais profunda, é uma política criminosa que vê o mundo pela velocidade de remuneração da acções a 1 ou 2 anos e que implica despedir pessoas, no público e no privado, incluindo os mais experientes, com 45, 50 anos, para daí a 1 ou 2 anos concluir, com surpresa, que as empresas estão falidas ou…a borrifar bactérias.

Uma nota final para o meu espanto sobre os comentários que oiço, face a este escândalo (que está a tentar aparecer como “normal”), que dizem que os mortos tinham já problemas anteriores – ora uma sociedade onde há pessoas com problemas de saúde só tem obrigação de concluir que deve prevenir ainda mais e não que é normal terem morrido. Isto não é evidente?

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3 thoughts on “A Borrifar Bactérias

  1. A instrumentalização dos seres humanos normais, que ambicionam fazer parte saudável numa sociedade saudável, por parte de um punhado elitista a quem “pertence” uma País, uma Nação, é o caminho mais rápido para a própria destruição dessa Nação. Pedir aos enfermeiros para não fazer greve sob estes argumentos é um manifesto de incompetência, desonestidade, uma prova de má fé de um governo prestes a sair de funções e entrar para os quadros dos bancos, financeiras, energéticas, construtoras, etc, que andam agora a alimentar.

  2. Pingback: A Borrifar Bactérias | O Retiro do Sossego

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