Na morte da historiadora Dalila Cabrita Mateus

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Morreu hoje Dalila Cabrita Mateus, historiadora, autora de uma vastíssima obra sobre a guerra colonial, investigadora do Grupo de História Global do Trabalho, que coordeno, do Instituto de História Contemporânea da UNL. É para todos nós uma notícia muito triste e uma perda para a historiografia portuguesa. Todos temos defeitos, alguns insuportáveis, e qualidades, algumas tão agradáveis, mas ninguém é interessante se não tem coragem. E a coragem não está nos que dão murros na mesa, nos que são desagradavelmente frontais ou dissimulados, nos que levantam a voz e cerram os olhos. A coragem é outra coisa, é a medida da nossa relação com o poder, ou seja, com aqueles que hoje – e não só no passado – têm mais poder do que nós, dos grupos políticos às simpatias académicas, ao Estado, o mais perigoso dos poderes porque justamente é o mais poderoso. A Dalila era uma historiadora corajosa, e o seu acto mais destemido foi ter escolhido estudar a PIDE nas ex-colónias, provando que era uma polícia facínora, que cometia assassinatos, uma polícia muito eficaz que operava em relação estreita com o Exército, e com um apoio massivo entre os colonos que, ao contrário do que acontecia no ‘continente’, os acolhiam respeitosamente nas cidades africanas quando estes entravam num hotel ou restaurante (salvo honrosas excepções). Isso trouxe-lhe inimigos e uma vida pessoal difícil de gerir. Logo a ela, uma minhota pequena, de pele muito branca, aspecto frágil. Sempre como professora do ensino secundário – cada vez mais desmoralizada com a perda de qualidade da escola pública – manteve-se como investigadora produzindo uma obra imensa que abarcou a resistência anticolonial, as memórias do colonialismo, o trabalho forçado durante o Estado Novo, as relações internacionais da PIDE-DGS, a luta pelo poder em Angola.
Deixou-me em legado a sua biblioteca e o seu arquivo, num almoço tristíssimo há dois meses atrás onde me disse que não sabia se tinha futuro e que eu ficava com os livros e documentos dela para “fazer o que bem entendesse”. Tentei balbuciar algo. Em vão: ela interrompeu-me com determinação. Hoje, estas notas são por isso também um apelo público aos investigadores, jovens e menos jovens. Espero que muitos dêem um passo corajoso e continuem esta obra – dois livros estavam a ser escritos e muitos outros podem sair daquela imensidão de notas, documentos e saber acumulado.
Felizmente, houve oportunidade para lhe dizer pessoalmente o que pensava: a sua obra será, como todas, atualizada e criticada, confirmada e revista, mas é incontornável. É, digamos, um caso raro de uma obra sobre o passado que tem futuro.

Aos seus filhos, Pedro e Susana, um abraço fraterno.

Raquel Varela

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