O meu chicote é de cortiça, por favor

Cada vez que alguém fala à minha mãe, cientista de profissão, de doenças, bagas anti-oxidantes, benefícios do ioga e do ómega 3, ela responde com um sorriso irónico, às vezes fumando uma cigarrilha ou bebendo uma cerveja belga, “não te preocupes” vamos todos morrer “cheios de saúde”. Invejo-a por essa bonomia, que não herdei, infelizmente. Há várias vezes na vida que o Estado, por sua iniciativa ou pressionado por comportamentos colectivos irracionais, toma medidas que o ultrapassam e sai da prevenção, necessária, para o totalitarismo, que invade cada poro da nossa liberdade individual. Ensinar e ameaçar não é o mesmo, prevenir e proibir são coisas distintas. Serviram-me hoje na Lufthansa manteiga sem sal. Não é com pouco sal, é mesmo sem. Pensei se a seguir não vinha uma hospedeira elegante dar-me um chicote para eu em dez chibatadas expiar a culpa do adocicado molho de tomate que acompanhava a carne, estaladiça. Não chegavam os anti-tabagistas fanáticos, os vegetarianos intolerantes, os apelos diários às análises clínicas de rotina, os impostos sobre as bebidas alcoólicas, os consumidores de estatina que passam 14 horas por dia sentados, o sexo, que quando sai do tabu em que a sociedade ocidental o colocou, não é para falar de prazer, bem estar emocional, ou dos “segredos” das relações felizes, mas de doenças e reprodução – atenção, que isto é “normal (!?) mas, ou dá doenças ou dá bebés”, eis o resumo da famosa educação sexual em vigor nas escolas, para uns nerds emocionais que comunicam por símbolos de computador. Agora temos manteiga sem sal… o sal, o 8º pecado desta infinita lista de uma sociedade normalíssima onde se trabalha umas saudáveis 12 horas, mais uma revigorantes 2 horas em transportes, seguidas de mais 2 horas de fortificante trabalho doméstico! O meu chicote pode ser de cortiça. É reciclável, não prejudica a natureza…

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5 thoughts on “O meu chicote é de cortiça, por favor

  1. Obrigado por mais este texto.A sua coragem em chamar os bois pelos nomes é uma ajuda diária para a nossa sobrevivência mental. Obrigado

  2. A minha mãe costuma dizer que o melhor é ir variando nos venenos…afinal de contas que piada tem a vida sem todas as coisas boas que nos fazem “mal” ;)… By the way, na Alemanha é comum a manteiga não ter sal e muitas vezes ser margarina, daí provavelmente a Lufthansa servir esse tipo de manteiga. Via-me grega para encontrar manteiguinha boa 🙂

  3. Percebo o ponto de vista, mas queria só deixar uma nota cultural: na Alemanha a manteiga que toda a gente consome é sem sal. Não é fundamentalismo, é uma questão de gosto colectivo. Aliás, para comer com muitos dos pães que por lá existem, nomeadamente alguns com crosta de sal, é mesmo a que sabe melhor.

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