O Ébola, uma doença do atraso ou da “civilização”?

Já se sabe que quem só sabe de medicina nem de medicina sabe. Há 38 anos, Peter Piot, microbiólogo de origem belga, isolou, num grupo de pesquisa, o vírus ébola, um dos mais mortíferos que se conhecem. Mas, desde então, os surtos de ébola têm estado confinados a zonas – aldeias, vilas – específicas, porque, explica, o vírus é de baixo contágio, havia menos mobilidade entre populações e havia profissionais de saúde que continham a sua propagação.

O que aconteceu agora? O que mudou? A “tempestade perfeita”, diz-nos na revista Sábado (16-10-2014) : a guerra desagregou as populações. Havia, em 2010, 51 médicos em toda a Libéria e a maioria morreu infectado, entretanto; uma parte dos hospitais utilizam seringas não esterilizadas e vem daí o contágio – das seringas dos próprios hospitais! (e que esforço, acrescento eu, chamar a casebres no meio de um bairro de lata onde uma pequena criança de 4 anos está em “isolamento” em cima de um colchão imundo…)–; a ausência de médicos e profissionais de saúde fez com as que as populações fizessem aberrações como pegar em cadáveres – altamente contagiosos – e transportassem-nos para as aldeias – algumas transfronteiriças –, onde, segundo crenças ancestrais, têm que se enterrar os mortos. O microbiólogo, hoje diretor da Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres, não exclui, se se atingir o coração dos gigantes bairros de lata que são as capitais destes países ou países como a Índia, de populações subnutridas, sem acesso à saúde, com péssima alimentação, uma “catástrofe inimaginável” na zona. Na Europa é altamente improvável um cenário idêntico justamente por ter condições de saneamento, habitação, médicas, etc., isto é, sublinho esta sua conclusão, não é pelo vírus em si (embora o médico não exclua no futuro mutações que agravariam a situação) mas pelos sistemas públicos de saúde e pela qualidade de vida que a Europa está livre de uma catástrofe. Ou seja, por causas sociais que controlamos. E não por causas naturais que não dominamos.

A expansão do vírus é o resultado do processo conhecido como globalização capitalista que, num aparente paradoxo, só aparente, contém em si dimensões do atraso pré capitalista (permanência de crenças locais absurdas que obstaculizam a medicina) – com o mais avançado que há no mundo – exploração petrolífera, agronegócio, extração de diamantes, os tão apregoados “mercados africanos”, cuja consequência mais visível na Europa são os milhares de imigrantes, vivos e mortos, a atravessar o mediterrâneo.

A África precisa de criar lideranças decentes, a África precisa de organizações políticas corajosas e democráticas que mobilizem a população. Mas também precisa de nós. Há várias décadas que desistimos, nós, as populações no ocidente, de África, não nos opondo a políticas externas dos nossos Estados devastadoras para os povos africanos. Embora nós, portugueses, sejamos tão devedores a estas populações que apoiaram os movimentos de libertação – foi a derrota da guerra que impulsou o MFA a fazer o 25 de Abril contra a mais obscura ditadura europeia.

Temos uma imensa responsabilidade em colocar os meios médico-sanitários que os profissionais exigirem. E os meios sociais que nós, cientistas sociais, conhecemos bem. Por exemplo, acabar com a política de financiamento de excedentes europeus alimentares e chamar a isso “ajuda humanitária” – até estremeço quando vejo uma caixinha por esses aeroportos fora a dizer “dê um euro para ajudar África” e sei que ele pode acabar a comprar o leite da Nestlé financiado com subsídios da PAC para produzir mais do que vende, e para não fazer cair os preços a seguir ele é comprado pelos Estados europeus e depois despejado em África, gratuitamente, arrasando com os preços locais, os agricultores autóctones e as aldeias, enchendo em consequência os bairros de lata de miseráveis expulsos para as cidades; denunciar os mega negócios de monoculturas de cacau, café, como na Etiópia, que fazem o sucesso dos cafés gourmet europeus; ou o despejo de lixo radioativo europeu na Somália, acompanhado por tropas da NATO – portuguesas também – que supostamente estariam a combater piratas, os pescadores que se armaram para evitar que as suas águas fossem contaminadas e assim perdessem o sustento de pescar e viver do mar; não tolerar a destruição de sementes locais patrocinada por fundações como a de Bill e Melinda Gates, criando variedades dependente de sementes e fertilizantes produzidos pelos conglomerados químicos norte-americanos. Ajudar África é em primeiro lugar não compactuar com a pilhagem de recursos locais, dividida entre monopólios ocidentais e líderes negros locais. E isso inclui não deixar que um único euro da falência do BES e do BANIF seja pretexto para fazer de Portugal a porta giratória para lavar o dinheiro sujo das ditaduras africanas.

No arquivo da RTP, descobri uma vez uma manifestação de ecologistas no Rossio em 1975, em que um jovem barbudo vociferava lá de cima da estátua do D. Pedro contra os pesticidas, o nuclear e mais umas apologias do Maio de 68: “Dizem que isto são doenças da civilização!? Pois eu vos digo, eu vos digo, isto são doenças da barbárie!”. O ébola, até ver, é isso – um vírus que se contagia, também, pela barbárie económica.

Por Raquel Varela

Publicado originalmente na Revista Rubra

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