O regresso da marmita

Muitos portugueses têm memória de comer fora como um passatempo. “O que fazemos no próximo sábado? Vamos almoçar fora.” Não era só o petisco. Era o convívio, a viagem, o pretexto para juntar família e amigos – na serra do Algarve, na costa alentejana, à beira-rio no Ribatejo, lugares onde nos esperava uma caldeirada, uma sardinhada, uma feijoada de lebre (recém caçada), lampreia, sável, cabeça de borrego… Há vinte anos o custo da gasolina ou da comida era comportável para um salário médio de um trabalhador industrial ou dos serviços. Até há dez anos atrás também almoçar com os colegas de trabalho numa tasca era comum – as gerações mais novas, nascidas durante os anos 80, desconheciam o significado da palavra marmita, que soava a qualquer coisa “do tempo dos nossos avós”. Recentemente, abriu no País uma cadeia de lojas de venda de marmitas e sacos térmicos, com todas as cores, tamanhos e feitios. Abriu no mesmo país, o nosso, em que os operários em 1974-75 – e já nos anos 80 – fizeram greves para reclamar um refeitório, contra a má alimentação. Como na metalúrgica Seldex, onde recusaram a marmita dizendo: Não somos cães para comer de uma lata!”

Na Holanda almoça-se pão com queijo e leite. Um dos empregados do nosso trabalho, em Amesterdão, marroquino, comentou-me rindo: “Estou aqui há vinte anos, adoro, mas é como se estivesse sempre no Ramadão: só como de manhã e à noite, o almoço é insuportável!” No centro histórico de Budapeste come-se nas mesmas cadeias de comida de qualquer cidade europeia – rápidas, hipercalóricas, trigo, açúcar, leite, batata, porco e um frango mutante são a base da alimentação hoje dos pobres e dos sectores médios na Europa. Lisboa está cheia de hamburguerias e lojas de sandes, que nascem onde antes havia tascas a servir cabeças de pescada com feijão-verde e carapaus assados à espanhola. Ao lado das hamburguerias inauguram-se restaurantes onde se come peixe fresco e frango verdadeiro, são os espaços gourmet, totalmente inacessíveis ao salário médio dos trabalhadores portugueses – 80% dos trabalhadores por conta de outrem ganham menos de 900 euros líquidos.

Uma combinação histórica de urbanização tardia, elevação salarial durante a revolução de 1974-75, congelamento das rendas e/ou habitação com preços controlados fizeram que em todos os bairros existissem tascas, de gestão familiar, onde se comia bem. O aumento do IVA para 23%, a liberalização das rendas, a elevação brutal do preço dos alimentos (em grande medida porque não há financiamento para a agricultura), a regulação obsessiva da ASAE e a quebra do consumo interno em troca de uma política suicida de exportações, tudo isto trouxe de volta a marmita.

Publicado originalmente na revista Mais Alentejo, Agosto-Setembro de 2014.

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