USP em Greve – envio um cheirinho de alecrim

Acabei de assinar uma petição contra a brutal repressão, apocalíptica (balas, gás lacrimogénio) sobre os professores da Universidade de São Paulo em greve – jurei que nunca mais ia assinar petições pela sua inutilidade mas como vem agregada a algo concreto -plenários gerais, greves, etc – assinei. Tenho na USP alguns grandes amigos, do peito e da alma. Para fugir à asfixia de uma academia portuguesa corporativa fiz quase todo o meu percurso académico ligado teoricamente a intelectuais brasileiros (e espanhóis e holandeses). Foi assim que descobri, já com quase 30 anos, a terminar o doutoramento, que em Portugal não se distinguia Estado, Governo e Regime, e se confundia classe social com sector socio-profissional, Estado social com assistência social, creio que o equivalente a um fisico não saber a lei da gravidade – a lei do valor continuamos a não saber…(esse é o tema mais sério, por isso fica para depois).

Enquanto que aqui os académicos, com honrosas e muito dignas excepções, carpiram os anos da contra-revolução adoptando, à esquerda e à direita, as ideias mais obscuras e os autores mais vagos (com uma precisão extraordinária escolhia-se o acessório, mas escrito de forma suficientemente elástica, para dar “para um lado” e “para o outro”!), no Brasil, ainda que minoritária, uma geração de professores chegados à academia em cima das greves do abc, no final dos anos 80, num clima cultural de contestação ao Estado, fez renascer a universidade brasileira, pujante, crítica, dinâmica, desafiante, enquanto a nossa envelhecia, entre o corporativismo e a precariedade. Salvou-se aqui, durante uns anos, a investigação, porque o ensino foi asfixiado entre ausência de contratações, propinas, Bolonha… Se dúvidas há, no Brasil hoje conheço a obra de uma dúzia de autores, de Florestan Fernandes a Chico Oliveira (ambos foram da USP, se não estou em erro), a explicar o desenvolvimento histórico do país, em Portugal não conheço um. Não falo de sentimentos e cultura, disso temos para fado que não acaba, mas da evolução histórica da economia, estrutura de classes, determinantes de acumulação, posição do país no sistema internacional de Estados. Recomendem-me um livro onde haja uma boa tese – contestada ou não – mas uma boa tese, que faça esta análise? O que é o Portugal contemporâneo? Quais são as suas determinantes históricas?

Esta geração nova, de intelectuais críticos brasileiros, hoje na casa dos 40, 50 anos, engajados, não permite agora a privatização da Universidade, organizou-se para tal, e teve como resposta nada mais nada menos do que a…polícia anti-motim. Uma vergonha, não me ocorre outra palavra. O Estado envia aos professores, as gentes que educam, pensam, debatem, o Estado envia-lhes as armas e a força policial!
Não quero glorificar os outros pagando o preço da nossa auto mutilação – adoro o meu país e é na minha universidade que tenho a minha relação de amor com a história, e alunos e colegas extraordinários -, mas que a pior coisa que aconteceu à universidade portuguesa foi deixar de ser inteiramente gratuita e pública, disso não tenho qualquer dúvida. Já temos a experiência do mau que isso nos trouxe mas não sabemos o que deixámos de viver com esse afunilamento cultural – quantos alunos, conversas, debates, descobertas e teses ficaram de fora da Universidade com a sua privatização? E o preço a pagar para isso é uma regressão na formação da força de trabalho que destroi, para usar uma palavra cara aos liberais, o “tecido económico” do país. É ver os anúncios no Expresso, actualmente, a pedir “licenciados pré-Bolonha”…
Por isso, além da minha assinatura, deixo estas palavras de solidariedade. Que são também de agradecimento –  aos meus colegas da USP, da UFRJ, da UFF, na UFSC, da Unicamp e de todos os outros lugares onde vou aprendendo tanto, quando eles ou eu, e as nossas ideias, cruzamos o altântico.

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