O problema é vosso!

Quando eu era pequena a professora Rosa ensinou-nos que nos romances, na literatura, pode-se “atribuir qualidades humanas a coisas”, mas isso “meninos, não é a realidade” – o estojo de canetas não chora e a cadeira não se alegra.
Tenho lido com atenção o que se publica na imprensa sobre o BES – porque creio que neste momento o desenlace deste Banco é o assunto mais importante do país. O que não se diz do BES é que o ratio pode ser de 3% (tecnicamente falido) e o Bdp pode estar a preparar o Estado para garantir os bancos que vão recapitalizar o BES – uma catástrofe que se ia abater sobre salários e reformas. Se o conhecimento dos rudimentos da economia tivesse sido ensinado a todos, como parte da cidadania e da democracia, ali ao lado da matemática, da história, do português, talvez o país hoje tivesse parado, nos locais de trabalho, nas escolas, nos hospitais, só para os 10 milhões de portugueses decidirem o futuro do BES com mais responsabilidade e calma do que decidem juntar-se, emigrar, comprar uma casa ou ter filhos. É todo um país nas mãos do desenlace de um Banco.
Mas assim não é. A economia ou é uma ideologia surreal nos meios de comunicação ou uma arte restrita a meia dúzia de pessoas, embora diga respeito a toda a sociedade, que não compreende siglas e nomes básicos, ficando à mercê da seriedade ou da falta dela. E um dos muitos rudimentos básicos é que a economia são pessoas. Por exemplo, escrever que o BES “não aguentou a pressão”, ou que o BES “teve mau desempenho” ou que os “Mercados estão irritados com o BES” – vulgar nos nossos meios de comunicação – é uma composição literária, que pode dar um poema mas não uma notícia que condiciona a atitude de toda uma população. O BES são os accionistas, que têm nome e título de propriedade, e os Grupos a quem o GES/BES devem ou Bancos são accionistas também, homens e mulheres de carne e osso, morada e fotografia. Quem “não aguenta a pressão”, quem está em “regime de fuga de capitais”, “irritado” a pressionar o Governo ou a ter uma “mau desempenho” não é o BES, porque isso é uma sigla. Quem está mal são os investidores, que a reboque da família Espírito Santo foram acumulando títulos nos seus cofres, que viram ir por água abaixo. Mas não porque o dilúvio chegou a Portugal, houve um praga medieval de peste ou uma invasão de gafanhotos, mas porque investiram, arriscaram, negócios que foram efectivamente desvalorizados. Isso – como vamos dizê-lo da forma menos literária possível… – é “caríssimos senhores, um problema vosso!”.

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2 thoughts on “O problema é vosso!

  1. Por isso é que deviam ter deixado falir o BPN, mesmo que fosse mais caro a curto/médio prazo ensinava uma lição valiosa. Os bancos são empresas, os bancos, como qualquer outra empresa, visam a obtenção de lucro para os seus investidores. E como qualquer outra empresa podem correr mal. E depositar dinheiro num banco é emprestar dinheiro a uma empresa. O estado e o banco de Portugal garantem que não perdemos os nossos depositos até 100.000€ acima disto estamos por nossa conta e risco.

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