O Relógio dos Médicos

Eu tenho um médico de família. Gosto dele. Não gostava do anterior. Era mal-encarado, tinha ar de quem tinha acabado de ler uma peça do Ibsen e queria que eu sofresse com ele. Pedi para mudar, “incompatibilidades literárias”, expliquei na secretaria. Já lá vão uns anos tenho outro médico. Vejo-o pouco. Mas quando preciso, com voz paciente, atende-me. Rápido, muito rápido, é um entra e sai de gente a tarde toda no gabinete dele, velhos, novos, com crianças ao colo.

A Organização Mundial de Saúde diz que os médicos têm 15 minutos para ver cada paciente, e como têm 1800 doentes – leram bem, 1800 – sob a sua responsabilidade, 15 minutos é uma fartança. Dizia eu que gosto muito do meu médico de família, desde logo porque faço parte dos seus 1800 filhos, somos uma grande família. E por isso até já lhe ofereci prendas – a última, e creio que até hoje a mais valiosa, foram uns morangos biológicos, vinha a comê-los quando entrei no gabinete dele. Comentámos a correr que “o sabor era incomparável”, disse mal dos pesticidas da Monsanto e ele comentou apressadamente “que delícia, são mesmo bons, mesmo como antigamente”…mas, ops, já tinham passado 5 minutos. Disse-lhe ao que vinha. Ele viu, preencheu qualquer coisa no computador, estávamos já nos 13 minutos, o relógio da OMS sempre a contar…

Se a nova lei for para a frente, contra a qual dias 8 e 9 os médicos fazem greve, os meus morangos porventura são proibidos, considerados uma prenda. Para que não se diga o que todos sabemos  pretendem ainda calar a voz dos médicos, que denunciam a erosão dos serviços, com uma lei da rolha. O Serviço Nacional de Saúde sustenta 30% do financiamento dos hospitais privados – Espírito Santo, Mello, Millennium BCP -, tudo nome de instituições a que associamos imediatamente pessoas especializadas em tratar-nos da saúde. E são estes os números oficiais, que estão muito aquém da realidade, porque jamais os privados vão pagar a formação dos médicos (12 a 14 anos de formação, pagas pelos contribuintes públicos). Ou seja, com força de trabalho formada, mais de 50% do dinheiro de facto que entra nesses hospitais privados vem do nosso Serviço Nacional de Saúde/Orçamento Público. Dito de outra forma, há muito que os hospitais privados tinham ido à falência se não fossem despudoradamente sustentados por dinheiros públicos. E os meus moranguinhos é que são uma prenda?

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11 thoughts on “O Relógio dos Médicos

  1. Por acaso tive uma consulta com o meu médico da família hoje. Meia hora atrasado entrei no consltório dele. Parecia muito atarefado e mais que um bocado “stressado”. Perguntou-me como que podia-me ajudar. Respondi que tinha chegada uma carta do hospital onde fui fazer uma ressonância magnética à cabeça por causa da surdez gallopante do que estou a sofrer. Expliquei-lhe que a carta disse que o “scan” não mostrou problemas com os ouvidos que pudesss sugerir uma explicação para a perda de audição. Não obstante, mostrou áreas no cérebro que indicaram um constrangimento do fluxo sanguíneo no passado recente. Ele consultou os dados do meu ficheiro no computador e elaborou, dizendo que o scan mostrou indicações de um possivel enfarte futuro. Já tinham passados 10 minutos dos meus 15. Depois ele resmungou que o departamento da radiografia já deveria informado o departamento da neurolgia que não fez e teria que ser ele próprio a fazé-lo que era uma perda do tempo valioso dele. A seguir contei-lhe que tinha sido avisado pelo departameno do trabalho e pensões (sou Inglês e vivo agora em Inglaterra) que tinha de pedir um atestado médico para as próximas 5 semanas.
    Agora vou ter que voltar no tempo de há um ano atras e dar-lhe um pouco de “background” do meu caso. Estou a sofrer de uma doença das artérias periféricas, que me ataca nos membros inferiores. Há um ano atras o mesmo médico referiu-me ao departamento da radiografia para uma ressonância magnética do todo o corpo e pela qual tive que esperar 6 meses. Depois fui referido ao departamento cardiovascular com objecto de ter uma angioplastia pela qual tive mais 6 meses na lista da espera. Na altura fui informado que se tivesse ido ao privado teriam feito o scan e a cirurgia no mesmo dia e que teria alta depois de algumas horas. Quando, eventualmente, fui operado a espera tinha sido tão longa que a intervenção não teve êxito. Agora tenho de ser submetido à cirurgia que implica uma anestasia geral e uma estadia no hospital de dois dias. Tenho consulta marcada para dia 15 de este mês para “discutir as minhas opções”.
    Entretanto há já um ano que não posso trabalhar por causa da claudicação. Em dia 6 de Abril o meu médico foi proibido de assinar mais atestados para mim, que ele ignorou e passou-me mais um, sujeitando-se à sanções pelos serviços da saúde. O acto não valeu porque o departamento, debaixo da mão de ferro do ministro Iain Duncan Smith, cortaram-me o subsídio da baixa da qualquer maneira. Não recebo qualquer assistência da segurança social (que já é uma contradição em termos) desde dia 6 de Abril. Eu sou um dos sortudos, tenho umas magras poupanças que estão rapidamente a esgotar-se e a ajuda valiosa da minha irmã, sem as quais não sei o quê iria fazer. Mas existem milhares de pessoas no país classificado como o 7º mais rico do mundo que estão a ser referidas aos bancos alimentares e outras entidades da caridade, porque o goverrno, por razões puramente ideologicas, deixou as sem os mínimos meios de apoio. A decisão acerca dos casos das pessoas em situações precárias ou instáveis foi recentemente tirada do departamento do minístro responsavel para trabalho, pensões e segurança social e colocado nas mãos do serviço dos tribunais que já está ao ponto da ruptura por causa dos recursos pelas pessoas mais vulnerávais da sociedade. Eu próprio meti um recurso em tribunal mas a demora já é um mínimo de 3 meses e a subir. Ironicamente fui aconselhado pelo próprio departamento da segurança social para ressubmeter a avaliação da capacidade do trabalho à que foi inicialmente sujeita, porque a entidade privada Francesa encarregado de fazé-la foi achada incompetente. Daí o conselho do qual referi-me no primeiro paragrafo.
    Tudo isto é apenas para ilustrar à Raquel que Portugal não está sozinho em ter uma função pública burocrâtica e Bizantina. Em toda a Europa a luta para sobrevivência está a ficar cada vez mais feroz. Rematando, o meu médico da familia, quando tentei abordar outro assunto que tinha disse-me com uma certa irritação que já tinha gasto 20 minutes comigo e se quisesse mais teria de marcar outra consulta para semana.

  2. Além do comentado, anualmente. uns 100 milhões de euros de dinheiros públicos são gastos pelas câmaras municipais em pagar aos irmãos Castro os Médicos que arrendam durante dois anos. Algumas destas além de pagar o alojamento fazem o seu próprio contrato e subarrendam estes Médicos, ocasionalmente também oferecem as instalações pagas com dinheiro público, a grupos privados de Saúde, que devemos voltar pagar novamente caso tenhamos posses para isso.

  3. Pingback: O Relógio dos Médicos | Escritamente de Patrícia Ervilha

  4. não percebi! só dá consultas no publico, é…….?
    da ultima vez que precisamos com urgência do médico de família por termos detectado um problema de cancro grave a médica mandou dar a informação toda à secretária do centro de saúde e não se dignou a olhar para a nossa cara de desespero. Ou então estava a aproveitar os últimos moranguinhos..
    é que os moranguinhos que deixa de comer durante a manhã passa a jantar no restaurante com os resultados das consultas que a maioria dos médicos dá nos hospitais privados… é que mais uma vez não percebi a indignação: os médicos trabalham de graça nos hospitais privados?!!!

  5. Boa noite

    No meio de tudo isto não entendo uma coisa. ^Porque não criar uma lei que proíba os médicos de exercer no público e privado ao mesmo tempo acabar-se ia muita coisa como atrasos em consultas, “tachos com operações saltos nas listas de espera etc. Não percebo tanta discussão quando tudo se resolvia com muita facilidade.

  6. Pingback: O Relógio dos Médicos

  7. Os moranguinhos pesaram no seu orçamento muito mais que um land rover teria pesado no orçamento duma telecom qualquer a fazer gentilezas a um qualquer ministro de estado. No construir diagnósticos e tratamentos, revela-se a democracia.

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