Vendamo-nos todos de uma vez

Ontem, no mercado de uma vila no Algarve, um mercado de roupa de ciganos. — Menina, good price, good price, há big e há small!

— Sou portuguesa — sorri.

— Uff, que alívio! Nã me entendo com esta língua! — Diz com sotaque alentejano.

Lisboa é dos turistas. Onde viviam os habitantes locais estão agora hostels. Onde havia tascas, falidas com os 23% de IVA, há agora um qualquer Starbucks perto de si. Igual em Lisboa, em Tóquio ou no Rio de Janeiro, o Starbucks e o hostel, cuja decoração exclusiva é da Ikea, seja em Lisboa, Berlim ou Paris. Enquanto os portugueses comem na marmita, para matar saudades do povo da saudade, todos os dias aportam cruzeiros, que param escassas horas porque as empresas fogem das taxas dos portos e, sobretudo, porque venderam o pacote completo, e come-se e bebe-se tudo dentro do cruzeiro, sai-se para ouvir fado e comprar um galo de Barcelos, made in China. Dos idosos, 30%, deixaram de ir ao centro de saúde — na região de Lisboa — porque não têm dinheiro para o transporte, mas os velhos noruegueses vêm para cá jogar golfe, que aliás paga 6% de imposto, ou não tivesse a Noruega no pico de Agosto as mesmas horas de sol que Portugal em Março. As exportações crescem com os briefings de recursos humanos traduzidos por essa Europa fora a explicar que os portugueses são “qualificados, trabalham bem, recebem pouco e falam bem línguas”, por herança fonológica que nos coloca em melhor lugar que os espanhóis, azar, caros leitores, tiveram os nossos hermanos demasiadas vogais abertas na língua mãe, para receber os call-centers alemães e franceses, que aqui abriram portas. Também exportamos gente e recebemos divisas, porque queremos mostrar ao mundo que educámos bem os nossos filhos para irem tratar da saúde dos ingleses. Os ingleses apreciam o peixe galo, que compram ao dobro do preço e que, por isso, quase não se vende aqui, vai directamente da lota para a Inglaterra ou, então, para a Suiça. Fica uma parte do peixe nos nossos mercados chiques, também para os turistas ingleses e suíços porque uma refeição custa, pelo menos, 15 euros, num país onde 80% dos trabalhadores por conta de outrem ganha menos de 900 euros por mês. “Good morning, sir, neste país há big e small”. E é mesmo verdade, por exemplo, nas minas de Aljustrel um mineiro desce à mina 40 horas por semana e ganha 500 euros, com prémios, 600 — prémio ou sorte grande mesmo — , enquanto Ricardo Salgado, agora traído pelo contabilista, ganha 570 salários mínimos. Como diz uma personagem de “Estive em Lisboa e lembrei de você”, de Luís Rufatto, no meio das ruas de Lisboa, bêbado, discursando em alta voz: “vendamo-nos todos uma vez!”.

 

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