Temos que mudar o Mundo

Estou entre aqueles que acham que temos que trabalhar, temos que trabalhar bem, temos que ser avaliados, mas podemos fazer tudo isso numa sociedade equilibrada que tenha avaliações justas e sérias, divida o trabalho por todos como bem social (redução do horário de trabalho sem redução salarial), e garanta que produzimos aquilo que é necessário ao bem estar e não aquilo que é competitivo. Porque competitivo é produzir armas, medicamentos que não curam, estádios de futebol que não são usados e estaleiros navais sem segurança. Temos que mudar o mundo. Mas…como?

Podemos fazer o mínimo. Com racionalidade, agindo em bloco e tapando todos os buracos onde possa entrar água. Está em qualquer livro de história e sociologia de conflitos sociais. Parando a produção – regra básica. É preciso parar a espiral da acumulação, é aí que incomoda e uma acção de luta tem que incomodar. Greve, portanto. Dizer que uma greve não tem resultados é abdicar da forma de luta mais importante, porque eficaz, que há. Mas muitas greves não resultam, é verdade. As greves até podem ter resultados piores se não são bem preparadas. Uma derrota pode ser pior que ficar quieto. É  preciso controlo dos fura-greves que podem retomar a produção e são necessários fundos de solidariedade para que os que param consigam sobreviver. Se necessário, e é cada vez mais, é preciso protecção dos precários (uso de máscaras de respiração, como recentemente fizeram os trabalhadores da Honda, na China, para não se identificar a cara; greve de braços caídos para não se identificar dirigentes, ou seja, todos param ao mesmo tempo, não se podem apontar culpados). Uma greve tem que ser preparada cuidadosamente – não se chamam greves pelo facebook! – é preciso dirigentes de greve que vão a casa de todos os trabalhadores  e com eles falem cara a cara para os convencer a aderir à greve. É preciso controlar os dirigentes para não abusarem do poder mas é preciso proteger os dirigentes e figuras públicas que são atacados pelo poder. É essencial haver assembleias gerais de trabalhadores com democracia interna: todos falam, todos elegem – democracia é ouvir e estar sujeito à votação do outro; devem eleger-se dirigentes que são revogáveis imediatamente, caso não cumpram o plano de greve. É necessária a solidariedade de toda a família, amigos; e solidariedade de outras categorias de trabalhadores, o que não se consegue enviando uma carta aos sectores do lado ou assinando uma petição mas indo ter com eles e preparando, cara a cara, acções comuns. Tudo isto exige também um mínimo de cultura comum – os locais de trabalho têm que ter jornais próprios, boletins de divulgação, encontros regulares, e, jamais esquecer isto, quotização regular – o financiamento de uma organização é o seu coração. Quem quer lutar tem que pagar para isso. Ou alguém que não quer que eles lutem – televisões, jornais, empresas patronais, Estado – vai pagar por eles para destruir as formas de acção colectiva.

O que acabei aqui de escrever é o bê-á-bá de todos as conquistas sociais mínimas de civilização ao longo dos últimos 200 anos e aplica-se a estaleiros navais, médicos, professores, enfermeiros, juízes… Se algum leitor pensa que isto é radical é porque andou a tomar uma droga alucinogénea chamada pacto social, que durou 40 anos e cujos efeitos devastadores se podem ver na alucinação, febril e doentia, de a maioria das pessoas hoje achar que pode viver e trabalhar sem reunir, votar e pagar organizações colectivas de resistência ao poder, seja ele o poder do patrão, do Estado, do dirigente partidário ou do comentador televisivo.

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One thought on “Temos que mudar o Mundo

  1. Os cidadãos não confiam uns nos outros.

    “…quotização regular – o financiamento de uma organização é o seu coração. Quem quer lutar tem que pagar para isso.”

    Pagar para se ter voz é algo que os cidadãos estão habituados aliás os grupos de interesse têm incitado este tipo de lógica com os resultados que conhecemos, uma sociedade da competição ao invés da sociedade da cooperação. A sociedade que ainda hoje se diz democrática não é mais que uma ditadura de uma maioria. A aceitação de determinadas realidades tem sido um processo gradual e estranhamente pacifico, o que revela uma manifesta insensibilidade social dos cidadãos deste país. Talvez se a Raquel Varela disser o que se tem de fazer para alterar este estado de coisas talvez as pessoas consigam fazer algo pois ao que parece estes cidadãos não se querem como indivíduos.

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