Quais são os limites da má educação?

Qual é o limite da má educação? Os professores, exaustos, enviam para os pais os tormentos de gerir turmas de 30 alunos, uma parte mal educados, é um facto. Mas a escola serve justamente para isso, para impedir a reprodução social, ou deveria. Isto é, quem vem mal educado chega à escola e leva com uma boa dose de princípios mínimos de convivência e civilização, estilo quem fala dentro da aula está a incomodar outros 20, não o pode fazer, se faz favor, perdão, obrigada, são palavras doces e bem vindas, um mínimo, portanto.

Este fim de semana, em piquenique com amigos, todos com filhos, comentávamos os recados que já recebemos da escola – “o menino não colocou o dedo no ar antes de falar”, “a menina fala muito na sala de aula”, “o menino jogou à bola com a tupperware vazia do colega”, “no outro dia o rapaz escreveu recados para o irmão dentro da sala de aula”.

Como é óbvio perdeu-se a noção. Os miúdos deixam de achar o recado na caderneta uma coisa séria, e os pais ficam sem saber o que fazer, porque se a professora escreve na caderneta e não os castigamos desautorizamos a professora, se os castigamos por coisas patéticas desautorizamos-nos. O castigo é importante, é aliás um instrumento importante de educação mas deve ser usado com proporcionalidade. Que faço: não vão surfar porque jogaram à bola com a tupperware???? As escolas, com professores exaustos a trabalhar com 9, 10 turmas, com salários que não representam qualquer incentivo, com uma burocracia desmedida, não respondem ao básico e basicamente mandam os pais resolver assuntos que nem deviam ser do conhecimento dos pais e que partem da autoridade e respeito do professor na sala de aula. Era importante, essencial, que nesta equação os pais não fizessem a figura ridícula de desautorizar os professores quando estes actuam.

E, já agora, o colega do lado foi obviamente fazer queixinhas porque em boa verdade tal assunto não deveria sequer ter chegado ao professor. É uma sociedade que acha normal respeitar banqueiros mas fazer queixa do amigo, e onde os professores acharam que as suas condições laborais insuportáveis, que o são!, resolvem-se atirando para os pais, que estão fora da escola, a trabalhar. É o jogo do empurra para os outros os males sociais, que alguém ficará com a bola.
Mas a bola roda e há sempre alguém que fica com o problema porque ele continua por resolver. Isto resolvia-se a bem com esquemas de solidariedade entre professores, pais, funcionários e alunos que questionassem o centro dos problemas – a política educativa e as condições cada vez piores de quem trabalha, na escola e fora dela.

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13 thoughts on “Quais são os limites da má educação?

  1. A escola é para aprender, ganhar conhecimento, desenvolver o intelecto, organizar o raciocínio, conhecer o mundo, sistematizar aprendizagens, único local onde isso pode acontecer. A educação é dada em casa, pela família, ou na rua, pela sociedade. Uma escola (um professor) que tem que gastar horas a educar os meninos, não consegue ensinar nada. Não se espera da família que ensine a ler, escrever, calcular, discutir, reflectir, saber matemática, gramática, história, física, etc, pois não? Não se espere da escola que consiga tratar os mal educados, pois isso é uma tarefa pessoalíssima que cabe à família. Era assim dantes, hoje não será e isso é que está mal.

    • E portanto, quando a família “falha” essa pessoalíssima tarefa da família, gerando monstrinhos de egoísmo e arrogância, resta à escola (colegas, funcionários, porfessores) aguentar e integrar. Tá certo!

    • Não podia estar mais de acordo !! Só que é fácil muitos desresponsabilizarem-se porque ”..estão fora a trabalhar..” – tretas !! Mesmo estando fora a trabalhar tiveram arte e engenho para fazer os meninos, que tenham tambem para os educar ou então…..não os tenham !!

  2. curiosamente, a escola não serve para impedir a reprodução social, a escola é a própria reprodução social, talvez infelizmente, mas inevitavelmente

  3. Os pais “estão fora da escola a trabalhar” e os professores devem estar na escola a brincar, não?!?!?!?!

  4. Mesmo com pouca, ou nenhuma autonomia, a escola é e será sempre, que o seu corpo directivo, docente e não docente quiserem. À que convencer os alunos, que não andam a fazer lá o “frete”, nem à escola, nem aos professores, nem aos pais, nem ao país. E que numa sociedade como a que temos, só a vamos modificando se, cada um dos envolvidos, queira e trabalhe nos seus limites. “Marrar” umas coisas para o dia do teste e não ligar mais ao assunto, o aluno está a enganar-se a si próprio. Também nesta sociedade de capitalismo selvagem, há poucos empregos e pouquissimos empregos bem pagos, mas se todos têm dificuldades, os menos prerados têm mais dificuldades. Pensem nisso.

  5. Enquanto lia o texto, lembrava-me que as tropelias que a Raquel relatava nos recados da escola, essas e outras bem piores, dentro e fora da escola, qual de nós não fez parte do desafio às convenções que bem conhecíamos? Isso fez parte do nosso crescimento, levar a vida no desafio ao limite dos bons comportamentos sociais, foi em certa medida uma forma de aprendizagem, só estava errado a partir do momento em que um descuido fazia que a mão nos caísse em cima e…
    Mas… Hoje a criança tem uma valorização social que não tinha naquele tempo. As mães e os pais (os bisavós de hoje), gostavam igualmente de nós, a diferença era a sociedade, até parecia que gostava menos das crianças mas não se pode dizer desta forma, um sociólogo saberá dizer isto melhor do que eu. Diria portanto que, sabíamos que andávamos sempre no risco, e se alguns tinham pais que batiam sem bater, – que diga-se, eram por vezes os piores castigos -, outros molhavam mesmo a sopa. O resultado foi esta geração de avós com sólida formação moral, já não direi tanto em relação à actual geração de pais e estamos todos a dizer que nada em relação à geração dos vossos filhos.
    Sem prejuízo de encontrarem as outras razões que existem, o meu primeiro raciocínio foi para o facto de nós termos feita lá atrás coisa idêntica com a diferença de sabermos que o fazíamos na corda bamba. Hoje, os nossos queridos netinhos e vossos ricos filhos não o fazem numa corda bamba, fazem numa auto estrada. Há que encontrar obviamente a média ponderada, porque conheço alguns dos vossos, e são mesmo ricos, tão ricos que não merecem de vocês se atrevam a molhar a sopa. Mas se merecessem? Molhavam?

  6. A educação deveria ser um dado adquirido da maioria; infelizmente, e frequentemente, metade das aulas são para ensinar normas de civilidade, de saber estar e respeitar e não para transmissão/troca de conhecimentos…Realmente o brincar com o tupperware do colega,aparentemente, não é nada de mais (e o professor deveria deixar que os meninos resolvessem o assunto entre si); o problema reside 1-nos paizinhos do menino,que se queixou em casa;2-a quem pertence o tupperware da brincadeira;muito frequentemente, ao colega mais frágil, mais diminuído e incapaz de responder. São gestos simples, mas que sendo constantemente desculpados levam a que os meninos achem que nada é mau e que tudo lhes é permitido.

  7. É um ponto de vista e como tal respeito-o. Mas perdeu a minha concordância logo na primeira linha. Os limites da má educação são ditados pelos pais dos meninos, meninas, jovens e adolescentes que têm esses gestos de má educação. O problema é que a escola, hoje, ainda não sabe muito bem o que é. Os pais não sabem muito bem quais devem ser os princípios mínimos. E na realidade ninguém sabe muito bem como lidar com jovens que nascem numa sociedade tão volátil como a nossa.
    O debate, na minha opinião, deve ser assertivamente centrado no papel da escola hoje.
    Sobre a má educação não há debate. Ou é ou não é. Não é na escola que “quem vem mal educado leva com uma boa dose de princípios mínimos de convivência e civilização”. É em casa. Creio que a resposta à pergunta inicial é o bom senso dos seus pais.

  8. Não acompanho a Raquel quando diz que os professores mandam recados para casa por dá cá aquela palha. Com tanto que têm de fazer essa é uma tarefa preventiva que, na avaliação da maioria, consiste numa chamada de atenção para a possibilidade de comportamentos e atitudes mais disruptivas. Por isso há que levar a sério os recados e não desvalorizá-los como o faz a maioria dos encarregados de educação. Não confrontar as crianças é, infelizmente, hoje em dia a regra e o(a) menino(a) impõe a sua lei em muitos lares. Porquê estragar o pouco tempo que se passa com eles com conflitos? É melhor imputar as culpas ao ‘chato(a) do(a) professor(a). Desde que uma vez uma mãe me respondeu na caderneta que não acreditava que o filhinho tinha feito o gesto obsceno que eu claramente tinha flagrado, sou parcimonioso nesse tipo de comunicação escola família. Se a criancinha estiver a chatear muito vai para o olho da rua com um trabalho atribuído e comunicação ao DT. Com 28 alunos de todos os estratos sociais, os mais diferentes registos familiares e alguns com necessidades educativas de carater permanente, life is too short. (Que tal um autista a gritar permanentemente durante toda a aula e a puxar os cabelos a professoras e funcionárias – que a mim, homem, não se atrevia). A escola pública em contexto de crise merecia uma atenção maior da parte de sociólogos e psicólogos que apontem o dedo ao verdadeiro genocídio social que se está a passar em Portugal. A disfuncionalidade dos núcleos familiares e,muitas vezes, a sua ausência física (emigração, trabalho por turnos, divórcios) têm tido um efeito devastador no clima das escolas. Só chamar a atenção para este dado: multiplicam-se os casos de maus-tratos (às vezes extremos) a crianças em período de férias…porque será?

  9. O que acho é que faz muita falta a régua em vez da caderneta. E isso da educação que se dá ou não as crianças e discutível, pois como estou farta de disser nas reuniões do meu filho de 12 anos que traz recados na caderneta quase todos os dias ou porque fala muito ou porque se vira para traz ou porque não fez os trabalhos….. tenho outro filho com 17 anos que nunca nunca teve um recado na caderneta, nem sequer falava na sala de aula, por isso não se trata de educação trata-se de que todos nós somos diferentes com personalidades diferentes mais ou menos conversadores ou bricalhoes uns que outros, claro que o que o meu desejo para muita gente que fala por falar sem conhecimento de causa é que Deus lhes dê muitos filhotes felizes e CRIANÇASSSSSSS amorosas mas muito faladoras…..

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