Saber guardar um segredo

Ontem, num avião da Ryanair, do Porto para Faro, o comissário de bordo, depois das normas de segurança, anunciou que havia uma “pessoa especial na fila 5 – Sara Costa, da Casa dos Segredos”. Até Faro – e mesmo com os tampões de ouvidos que não largo contra a permanente ameaça de música tecno, dos elevadores ao metro – tive que assistir a uma venda com “uma extraordinária promoção”, pelo comissário, de “duas raspadinhas pelo preço de uma” e de um “perfume 100 ml, livre de IVA, senhores passageiros!”. Pensei que se fosse até Marrocos teria dado tempo de venderem um colchão.

Consta que a ditadura de Salazar proibiu mais livros de sexo e de amor do que de política. Estou a ler um, de Cardoso Pires, Histórias de Amor, proibido então. Fala de amor como só os poetas e os escritores sabem falar de amor, do medo de amar, dos que não sabem amar, dos que desistiem de tudo para amar, de como o amor nos torna narcísicos e de como o desamor nos torna desumanos, de como o sexo é uma experiência libertadora e castradora, de como pode ser uma ou outra, fala de nós, nas contradições, nas escolhas, nas dúvidas, na vida. E isso era impensável para um regime – ditadura – erguido para disciplinar a força de trabalho, onde a ideia de felicidade humana era em si uma ideia perigosa, porque aos homens cabia trabalhar, dormir e garantir a sua sobrevivência – esse seria o objectivo da vida das pessoas para a ditadura.

Aparentemente, hoje, em democracia liberal, estaríamos num estágio de libertação dos afectos, da sexualidade, que jamais teria sido experimentado noutros períodos da história do país – exemplo máximo disso? A Casa dos Segredos, esse espaço onde não há limites, limites sempre apresentados como conservadores.

Eu tenho uma ideia, porventura conservadora, da Casa dos Segredos, quiçá da vida. Não vejo num programa cuja essência é o fim da intimidade nada a não ser o totalitarismo da vida mercantilizada, que tudo transforma em mercado, mesmo o último reduto de liberdade que nos sobra – a intimidade. A Casa dos Segredos não é um sintoma de um país livre. É uma expressão da barbárie, idêntica à dos tempos em que grunhos se babavam nos apredrejamentos públicos, aplaudindo. A Casa dos Segredos reside única e exclusivamente no culto totalitário do fim do eu, em que a sexualidade, as discussões íntimas e difíceis, a violência verbal e o desespero passam a ser vividos em directo. A Casa dos Segredos passa-se, aliás, num país cada vez mais conservador, que cheira a bafio, em que a instituição casamento deixou de ser debatida; em que a sexualidade é o maior tabu (já dizia Josué de Castro, há 2 tabus, fome e sexo), estando – e diz quem estuda o tema – a descoberta da sexualidade na juventude associada não à descoberta livre dos corpos, do prazer, da intimidade mas ao consumo de alcool, sem os quais os pequenos petizes não sentem confiança ou maturidade; num país em que a juventude –  rebelde por natureza, pensávamos nós -, reproduz códigos de seita, nas praxes ou em magotes de mega concertos; num país em que, aliás, se deixou de falar de amor ou sexo ou prazer para se falar só de saúde reprodutiva ou controlo das infecções (a famosa educação sexual é isto e nada mais); num lugar, este nosso país, em que uma parte significativa dos casais vive junto porque não tem meios financeiros para viver separado – confirmam estudos publicados. E outra parte, importante, vive só, porque, por tantas razões que ninguém debate nem ninguém fala, não conseguiu construir relações amorosas felizes.

Sou uma optimista irredutível, e não deixei de o ser pela minha viagem Porto-Faro. Mas confesso que não sei quem é a Sara Costa e acho a Casa dos Segredos um remake, no século XXI, de um grande filme chamado Feios, Porcos e Maus. E, para a próxima, vou de comboio.

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11 thoughts on “Saber guardar um segredo

  1. Pingback: A dissonância cognitiva da Raquel Varela | perspectivas

  2. E o motivo mais importante é que a aviação polui a atmosfera de forma brutal. É uma ordem de grandeza diferente.

  3. Para além de que a Ryanair é uma companhia desprezível, do pior que existe. Atropela todos os direitos e leis que puder, para além de ser óptima a sugar quaisquer subsídios que possa.

  4. Pingback: Viva rápido, morra jovem e deixe um belo cadáver. | Música Aquática

  5. Gostei da sua análise. Na sociedade ocidental, tudo é considerado um produto e possível de ser vendido. A sua análise da casa dos segredos, demonstra isso mesmo. Para além do sexo na prostituição, profissão centenária, agora também vendemos a intimidade das pessoas. Nada de mais.

    Só ficou a faltar falar da falta de qualidade que tal programa apresenta. Um programa cuja temática gira à volta de um número reduzido de indivíduos cujo único objectivo fútil é o corpo e alcançar os seus 5 minutos de fama. Pior ainda quem assiste, incentivando com audiências a continuação do programa, sabendo que é lixo e justificando com o prazer. Esta justificação não impede que o programa continue a transmitir uma visão prejudicial sobre as relações e não representativo da sociedade portuguesa. Pelo contrário, demonstram a forma como sub-humanos interagem uns com os outros, sendo valorizado a estupidez, a falsidade, a procura de atenção e a relação entre pessoas em detrimento do intelecto. O único objectivo é ser invejado e adorado. Não conseguem procurar sentido na vida em algo mais profundo.No entanto, os jovens crescem com a adoração irracional destas “estrelas” procurando imitar os seus comportamentos, acusando os que não o fazem de conservadores.

    Acho que finalmente percebo a acusação dos mais velhos em acusar os mais novos de falta de valores. Na verdade, não os acusam apenas pela sua promiscuidade mas porque crescem observando a vida de uma forma reduzida, por uma lente onde apenas as aparências e o social importa. A vida tem de ser mais do que isto.

  6. A Ryanair tem um funcionamento bem simples e conhecido mundialmente! Vende promoções a par de viagens económicas. De conhecimento público! O que me continua a surpreender são certas pessoas aproveitarem (por escolha pessoal) voar nesta companhia, sabendo disto tudo, e depois virem comentar em tom de gozo e de superioridade o trabalho de alguns, que honestamente estão a cumprir as suas funções. A falta de humildade destes comentadores neste caso é bem pior. Faz-me lembrar aquele tipo, que vai ao Porto, passar o S.João e depois critica num blog o ambiente horrível de pessoas simples (que nem conhece) com alho porro na mão, o cheiro nauseabundo das sardinhas, a música popular, o perigo dos balões e o muito ruído nas ruas, sem esquecer os malditos martelos… Ora se não gosta de rifas no avião, nem de “más” companhias de condutas dúbias, seria realmente bastante mais construtivo fazer uma descrição de todos os prós e contras de uma viagem comparada entre Tap, Ryanair , comboio, automóvel, e quem sabe, no silêncio total (com os tais tampões nos ouvidos) de bicicleta… Isso eu teria todo o prazer em ler, e eventualmente alguma coisa poderia aprender. Mas lá está, o maldizer é sempre mais simples, fácil e popular…
    Não sou funcionário de nenhuma empresa de aviação, também não gosto de programas tipo BB ou Casa dos Segredos, e detesto o S.João pela maioria das razões acima enunciadas, por isso opto por não ir, mas nem comento nem critico quem goste!

  7. Digam o que disserem da Ryanair. É uma companhia despresível, depende. Eles cumprem o contrato que é transportar uma pessoa de um local para o outro, com uma diferença em relação a outras companhias… A Ryanair RARAMENTE chega atrasada, outras com muito mais dinheiro e condições não pode dizer o mesmo. Viajei muitas vezes na Ryanair e nunca me queixei. O que não gosto, ligo os auscultadores ou o telemóvel e não quero saber das vendas deles.

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