Reformas Escandalosas !?

Há 947 pessoas que ganham, nas pensões do regime geral, acima de 5000 euros, num universo de 1 milhão e 700 mil. Percebem os caros leitores o que são 947 pessoas num universo de 1 milhão e 700 mil?? Há, na Caixa Geral de Aposentações, 5 700 pessoas que ganham reformas acima de 4000 euros, num universo de 475 000, quase meio milhão.
Primeiro ponto do debate: quem ganha 4000 euros não é rico. Vive decentemente. Vive dentro das possibilidades do trabalho, da formação, da produção e da tecnologia do século XXI. Na verdade o PIB dividido por todos nós, embora a conta não se possa fazer assim, daria mais ou menos isto (3500 se contarmos a população efectivamente empregada).

Segundo ponto, em Portugal, salvo casos pontuais, todos de indentificação nominal possível (não é preciso fazer escalões, identificam-se individualmente, porque são muito poucos), quem ganha reformas médias ou boas é porque o descontou.
Terceiro e mais importante: esta discussão não faz sentido algum. Porque é uma gota de água no oceano. O orçamento de Estado é um gigante pagador de PPPs e juros da dívida. As reformas, mesmo as escandalosas, não têm nenhum signficado a não ser criar a propaganda de que todos andam a viver acima das possibilidades. Isto num país onde o salário (na verdade são dividendos) de António Mexia da EDP – empresa protegida pelo Estado, monopólio de facto – ascende a 3 milhões de euros por ano. Isso sim, é imoral.  Mas pago diariamente por todos nós, muito acima das possibilidades dos nossos salários, da produção do país, da riqueza nacional. O facto não merece escândalo por parte dos cidadãos pela mesma razão que os ladrões comuns roubam mais facilmente um trabalhador do que um rico. É mais fácil.
Discutir o peso das reformas nas contas públicas equivale ao tipo que está uma semana a batatas fritas e hamburgueres e diz que a gastrite vem da maçã assada, que provou na sexta feira…

image

Advertisements

11 thoughts on “Reformas Escandalosas !?

  1. Raquel, que contas fez para chegar a este número?
    “Na verdade o PIB dividido por todos nós, embora a conta não se possa fazer assim, daria mais ou menos isto.”

    • A conta não se faz assim como refiro no texto. Mas refiro a população efectivamente empregada – daria mais ou menos valores médios desta ordem (3500 a 4000 consoante a taxa real de desemprego). Como digo essa conta não se pode fazer – só as brutais diferenças de produtividade, colocam isso em causa. Usei o exemplo para explicar que não são valores escandalosos.

  2. Bom dia Raquel,

    Quando diz “o PIB dividido por todos nós”, no “nós” só está a incluir a população activa, certo?

    Cumprimentos

    • Diogo, bom dia, a conta não se faz assim como refiro no texto. Mas refiro a população efectivamente empregada – daria mais ou menos valores médios desta ordem (3500 a 4000 cosoante a taxa real de desemprego). Como digo essa conta não se pode fazer – só as brutais diferenças de produtividade, colocam isso em causa. Usei o exemplo para explicar que não são valores escandalosos.

  3. Muita verdade no seu texto, mas, “quem ganha reformas médias ou boas é porque o descontou” nem sempre é verdade, houve quem soubesse aproveitar as formulas de atribuição das reformas/pensões e apenas desconto bem no final da sua “carreira”, claro que a culpa não é deles, apenas dos amigos que ditaram as regras.
    Certamente que a Segurança Social é sustentável, mas também é certo que os espertos vão estar sempre a enganar os justos.

  4. “…quem ganha reformas médias ou boas é porque o descontou.”

    De forma inversa quem pouco descontou, por vicissitude de uma sociedade profundamente desigual deve ter uma reforma miserável ou mesmo reforma nenhuma…sei que não é isto que defende mas é isto que está implícito nesta dialéctica, por outras palavras, um qualquer ajuste para cima das reformas mais baixas representa sempre uma cedência dos que mais descontam. Esta noção é errada e leva ao engano, justiça e caridade são coisas diferentes como sabe.

  5. Pingback: Parece que eu é que sou comunista, e não a Raquel Varela! | perspectivas

  6. pois o mexia ganha bem logo desconta bem logo vai ter uma boa reforma e será um entre quantos milhóes ? ah não faz mal não é mesmo ? como disse é uma gota …

  7. Parece que eu é que sou comunista, e não a Raquel Varela!

    A Raquel Varela mistura neste artigo vários factos diferentes e que não dependem uns dos outros (não se misturam em um mesmo nexo causal; ou, em bom português, “não tem nada ver o cu com as calças”): mistura o valor das reformas, com os valores pagos pelo Estado em relação às PPP (Parcerias Público-privadas), e com os salários milionários de algumas pessoas em Portugal, como é exemplo o António Mexia.

    Mete tudo no mesmo saco para tentar justificar algumas reformas acima de 2000 Euros (recorde-se que, na Suíça, que é um país capitalista por excelência, as reformas têm um tecto máximo, salvo erro, de 2000 Euros. E quem quiser ter uma reforma maior do que essa, tem que ter feito um seguro privado de reforma).

    Eu não tenho a certeza se a Raquel Varela é “assim mesmo” (se “nasceu assim”, como a Gabriela da novela “Cravo e Canela”), ou se faz de conta de que “nasceu assim”. Mas talvez “a coisa” deva ser natural.

    1/ em relação ao António Mexia: se uma empresa privada entender que deve pagar a um gestor 100 milhões de Euros por dia (por exemplo), é porque esse gestor vale esse dinheiro. As coisas valem aquilo que dão por elas. O que o Estado deve fazer é incidir sobre os rendimentos desse senhor os respectivos impostos.

    2/ as PPP (Parcerias Público-privadas) é outro assunto — e não tem nada a ver com o salário do António Mexia e quejandos, nem tem a ver com as reformas acima dos 2.000 Euros.

    Eu sou de opinião de que, em algumas PPP (Parcerias Público-privadas), o Estado deve comprar ou vender: repare-se que “ou” é uma conjunção disjuntiva: a Raquel Varela exclui: ou uma coisa, ou outra. Ou o Estado compra, ou o Estado vende, e não as duas coisas simultaneamente e nada diferente disto.

    Conta-se até a história de dois lógicos, em que um pergunta ao outro, quando ambos vêem um travesti: “É homem ou mulher?”; ao que o segundo respondeu: “Sim!”

    3/ a questão das reformas acima dos 2.000 Euros é uma questão de princípio — e não uma questão de percentagem em relação ao universo das reformas pagas pelo Estado. ¿Será que a Raquel Varela sabe o que é um “princípio ético”?!

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s