Entrevista Sindicato Enfermeiros Portugueses.

Raquel Varela é historiadora e investigadora no Instituto de História Contemporânea da Universidade Nova de Lisboa, onde coordena o Grupo de Estudos do Trabalho e dos Conflitos Sociais, e do Instituto Internacional de História Social. É presidente da Associação Internacional Strikes and Social Conflicts.

No livro Quem Paga o Estado Social em Portugal?, que serviu para desfazer algumas mensagens proferidas pelo Governo, dedica o prefácio aos enfermeiros e médicos pela luta em torno do Serviço Nacional de Saúde. Quer especificar um pouco?

Dedicámos o Quem Paga o Estado Social em Portugal aos médicos, aos enfermeiros e também aos professores, porque consideramos serem pilares essenciais do Estado social. Entendemos que o Estado social, antes de mais nada, é aquilo que permite os padrões civilizacionais que temos e que se veem não só na enorme melhoria das taxas de mortalidade infantil, de esperança média de vida, etc., mas também no desenvolvimento social e cultural do País.

Afirmámos, como resultado de um estudo colectivo que nunca foi contestado cientificamente, que “não há qualquer verdade em dizer que os trabalhadores portugueses têm uma dívida ao Estado e que o Serviço Nacional de Saúde, ou a Segurança Social (as pensões), ou a Educação têm que sofrer cortes”. Afirmámos e reafirmo. No âmbito da investigação que concretizámos fizemos a contabilidade de tudo aquilo que os trabalhadores pagam para o Estado social (funções sociais do Estado) e tudo o que recebem, a partir de números oficiais, e chegámos à conclusão de que há superavit, ou seja, as pessoas pagam mais do que recebem em Educação, em Saúde, em Segurança Social, em Desporto e em Lazer. Até hoje ninguém desmentiu. O estudo foi publicado há mais de um ano e transporta para Portugal o modelo utilizado nos Estados Unidos e em outros países da OCDE para calcular as funções sociais do Estado. Portanto, sobre isto não há qualquer dúvida: aquilo a que os Portugueses estão a ser sujeitos é um roubo! Não tem outro nome e tem consequências de barbárie social, nomeadamente se tivermos em conta tudo o que vamos ouvindo como o aumento brutal dos índices de pobreza, de fome… Índices que, normalmente, caracterizam os países que nós achávamos (e achamos) atrasados.

A Segurança Social é ou não sustentável?

É totalmente sustentável. Mais uma vez, até é superavitária. É o único item do Orçamento de Estado que nunca teve problemas de deficit. O que se passa é que é permanentemente descapitalizada, ou seja, o seu dinheiro é usado para tudo e, cada vez mais, para remunerar os diversos capitais, através das PPP, dos juros da dívida pública, etc.

Mas importa dizer que a Segurança Social só é sustentável se olharmos de outra forma para o trabalho. Portugal tem 5,5 milhões de portugueses ativos e 2,5 milhões de pensionistas por velhice. Medina Carreira fala frequentemente, alterando as variáveis, que temos 1,2 trabalhadores por cada reformado. Não é verdade! O que se passa é que Medina Carreira retira dessa equação os desempregados, que são 1 milhão e 400 mil, e coloca outro tipo de pensionistas, para chegar àquela conclusão. Na verdade, nós temos mais de 2 trabalhadores por cada reformado por velhice. Portanto, não temos um problema demográfico. Pelo contrário, o aumento da esperança média de vida e a possibilidade de os nossos pais e avós viverem mais é uma excelente notícia.

Esta sociedade produz uma riqueza social coletiva de 170 mil milhões de euros, o nosso PIB e é hoje muito maior e nós somos muito mais produtivos do que quando foram criados os sistemas de Segurança Social. Cada trabalhador é cinco vezes mais produtivo do que era em 1961. O sistema de segurança social universal é criado a partir de 1974-75, quando éramos menos produtivos e era sustentável. Como podia não o ser hoje? Os contribuintes estabeleceram um contrato com o Estado. É totalmente ilegítimo e imoral rompê-lo, e não é necessário cortar pensões!

Metade da população ativa, em Portugal, ou é precária ou está desempregada, o que significa que não desconta para a Segurança Social. Como é possível aguentar aqueles que estão reformados se temos relações laborais típicas de países periféricos? Em Portugal, 80% dos trabalhadores por conta de outrem ganha menos de 900 € líquidos; temos 1 milhão e 400 mil desempregados, quase 3 milhões de pobres sem transferências sociais, 10% dos portugueses que trabalham não conseguem chegar ao fim do mês com dinheiro. A Europa já criou um conceito para isto, chamam-se os working poor, ou seja, aqueles que com um salário não conseguem alimentar-se e chegar ao final do mês e, portanto, têm de acumular um segundo salário ou dirigir-se às instituições de caridade, muitas vezes organizada pelo Estado, como são exemplo as cantinas sociais, que são a nova “sopa dos pobres” regulada pelo Estado.

 

Lucro e riqueza significam o mesmo?

Lucro e riqueza não são a mesma coisa. Por exemplo, nós temos enfermeiros a emigrar mas que nos custaram muito a formar, a quem pagámos, colectivamente, e ainda bem, a sua formação. Mas os enfermeiros estão a emigrar, ou seja, houve um custo na sua formação mas a riqueza que estão a produzir vai para outro país. Se em vez do número de enfermeiros que temos (e o governo ainda quer despedir mais…) tivéssemos mais, a consequência seria ter mais pessoas a serem tratadas e cuidadas (isto é, mais riqueza mas menos capital nas mãos de privados, porque esse investimento em força de trabalho vai por exemplo para negócios privados). E, sobretudo, tínhamos um aumento da produtividade do trabalho dos enfermeiros. Neste momento temos enfermeiros permanentemente a fazer turnos – e esse é o objetivo do governo para muitas profissões, o de não contratar pessoas –, obrigando as que mantêm o seu posto de trabalho a fazer turnos sobre turnos, com graves consequências para a sua saúde. Claro que as pessoas aceitam fazer estes turnos porque têm salários muito baixos. Um enfermeiro é uma profissão muito qualificada, exigente, de risco, que implica uma grande responsabilidade e que ganha, se não estou em erro, durante 10/15/20 anos, 1200 € brutos, julgo que é por volta disto. É um salário que lhe dá para pagar a casa, alimentar os filhos, se os tiver, e pouco mais. Estamos a falar de um salário de mera reprodução da força de trabalho.

Aumento dos horários significa aumento da produtividade?

Não, pelo contrário! As pessoas não trabalham mais quando estão de serviço 8 horas em vez de 7. O aumento da produtividade em Portugal tem sido conseguido através da descida do custo unitário do trabalho porque as pessoas trabalham mais horas e ganham menos. Essa é a aposta do governo. É o padrão chinês, o padrão latino-americano… É o padrão de “a força de trabalho leva-se à exaustão”. Uma boa parte destas pessoas, a trabalhar turnos sobre turnos, horas sobre horas, 8, 9 ou 10 horas, não sei se chegarão aos 65 anos. Isto vai ter consequências!

E há ou não dinheiro? Essa é sempre a pergunta. Como é que podemos ter pleno emprego? Como vamos pagar a mais enfermeiros? Como vamos aumentar o salário dos enfermeiros e reduzir-lhes o horário de trabalho? Essa equação é possível, na nossa opinião, pondo em causa as rendas fixas do capital que vivem à conta, literalmente, do orçamento público, nomeadamente do SNS.

Temos um país onde metade do financiamento dos hospitais privados decorre dos subsistemas públicos. Por exemplo, temos uma queda de 9% nas análises no serviço público e um aumento de 12% nas análises pagas pelo serviço público aos privados. Portanto, temos um SNS que não é colocado em causa diretamente, mas é-o indiretamente, pela permanente subcontratualização, terceirização, às vezes escamoteada, às vezes nem por isso, de subsídios ao privado. Tudo isto põe em causa o SNS e torna incompatível pagar decentemente aos enfermeiros. Pior do que isso, à medida que se subcontratualizam os serviços ao privado, rapidamente as pessoas podem chegar à conclusão de que mais vale ir ao privado do que ao público. Por exemplo, neste momento, quem tem regimes subvencionados gasta aparentemente menos (claro que gasta mais porque pagou com os seus impostos), mas no imediato sai-lhe mais barato ir ao Hospital da Luz do que a um hospital público. Isto é descapitalização do SNS, também do ponto de vista dos recursos humanos. Ou seja, vai ser muito fácil para este governo dizer: “Não precisamos de tantos enfermeiros no SNS e portanto despedimo-los e acabamos com o contrato de trabalho que os protegia no serviço público porque os utentes estão a ir para o serviço privado”. Tudo isto é altamente inteligente. Não é por acaso que a Siemens Medical Caree outras grandes consultoras internacionais têm planos de gestão e de privatização dos serviços públicos que incluem todos estes mecanismos. O Banco Mundial tem relatórios onde aconselha isto. Há centenas de investigadores pelo mundo a pensar: “Como é que se privatizam os serviços nacionais de saúde e como é que se faz lucro com a saúde das pessoas?” Como é que, com a desgraça de uns, outros ganham?” Mas, do ponto de vista civilizacional, social e humano, isto é uma autêntica tragédia para nós.

 

No livro A Segurança Social é Sustentável, com o subtítulo “Trabalho, Estado e Segurança Social em Portugal”, retratamos o país a partir do trabalho e só uma parte é sobre a Segurança Social. Tudo o resto são estudos sobre o trabalho.

Fala-se muito, hoje, em pequenos empresários. Decorrente dos estudos, entendemos que esta parte substancial do País que aparece como «pequenos empresários» não o é. Na verdade são trabalhadores. É o típico caso das empresas de eletricidade, telecomunicações e outras que foram permanentemente chamando os seus trabalhadores, despedindo-os, possibilitando reformas antecipadas, e/ou convidando muitos dos que seus trabalhadores a criarem a sua própria empresa… Aquilo a que agora chamam empreendedorismo!

Para criar a sua empresa ficam com uma dívida ao banco. O capital (dinheiro) circula nessa pequena empresa, mas não se acumula aí, mas na grande empresa de que eles dependem. As ditas pequenas empresas são totalmente dependentes da grande e, portanto, quando a grande está parada são as pequenas que aguentam todos os custos da paragem de produção. Na verdade, estes pequenos empresários apenas conseguem pagar a sua Segurança Social, os instrumentos e os meios de trabalho, todos os custos associados ao trabalho e o salário, o seu e o do seu trabalhador (se tiverem). Do nosso ponto de vista são trabalhadores, não são pequenos empresários.

Claro que nós ainda temos alguns típicos pequenos empresários, ou seja, pessoas que tinham alguma independência. Eu penso que a tendência é para desaparecerem. Esmagados pelo aumento das rendas e pelo IVA, tendem a diminuir até pelo aparecimento dos centros comerciais. Claro que os centros comerciais têm outro esquema ligado à acumulação, à grande empresa, porque os donos são os grandes grupos económicos portugueses, Belmiro de Azevedo, Amorim e outros.

Estamos a regressar ao século XIX?

Eu gosto sempre de ter cuidado com essas comparações, porque o argumento “nós estamos a regressar ao século XIX” não é muito rigoroso do ponto de vista histórico. Porquê? Há semelhanças óbvias. No sentido em que, paulatinamente, põe-se fim ao direito ao trabalho, conquistado no 25 de Abril. Essa é a grande característica do pacto social pós 25 de Abril: o direito ao trabalho. A pessoa tem direito a trabalhar e a ter segurança no trabalho. E, de facto, isso nunca tinha existido até aí. Portanto, o que existia para a maioria da força de trabalho era aquilo a que hoje se chama precarização. Nem creio que se deva chamar este nome. O que existia era o trabalhador à peça, o trabalhador ao domicílio, o trabalhador sazonal e o trabalhador que era chamado à produção quando a havia e depois era expulso. Agora, curiosamente, o que temos é uma situação pior atenuada pelo gigantesco processo de caridade que aguenta esta força de trabalho. E é pior porque o número de proletários, no sentido clássico do termo, aumentou muito. Não só aumentou a população ativa, mas aumentou o peso relativo das pessoas que não têm nada para vender a não ser a sua força de trabalho física e psíquica. Não era assim no passado! Isto é um processo que se inicia sobretudo a partir dos anos 60. Claro que as pessoas às vezes não associam o conceito de um enfermeiro, de um médico ou de um professor a um proletário, como estou aqui a usar, ou seja, alguém que não tem nada para vender a não ser a sua força de trabalho e depende disso para viver. É disso que falamos quando nos referimos ao processo de proletarização. Eu penso, com toda a sinceridade, que um enfermeiro é um proletário. Agora o termo precário é um termo moderno que na realidade significa regressão social. Hoje um licenciado filho de um enfermeiro não tem a expectativa de ter emprego ou de ter uma vida melhor que a dos pais. Pelo contrário, a sua expectativa é ter uma vida pior que a dos pais porque as relações laborais são piores.

 

No seu livro afirma “Portugal teve até há pouco tempo um dos melhores serviços de saúde do mundo”. Já não temos?

Vou arriscar dizer uma coisa, e deixo na mão dos médicos e enfermeiros a resposta a esta pergunta: nós ainda temos um Serviço Nacional de Saúde?

Tenho muitas dúvidas em relação a isto e acho que esta pergunta tem de ser feita pelas pessoas. Uma coisa é existir um SNS no papel, outra coisa é existirem idosos que vivem na região da Grande Lisboa, com mais de 65 anos, dos quais 30% deixaram de ir aos cuidados de saúde porque não têm dinheiro para o transporte. Nós temos cerca de 13% dos idosos que não conseguem comprar medicamentos; temos sistematicamente um desvio de recursos do setor público para o setor privado. Como é que se justifica que médicos que estão no setor público não garantam o fim das “listas de espera” e esses mesmos médicos operem no setor privado? Não estou a dizer que a culpa é dos médicos porque, mais uma vez, acho que os salários dos médicos e enfermeiros, no serviço público, deveriam ser muito melhores e terem exclusividade; não deveria haver nenhum tipo de subvenções públicas ao setor privado. Quem quer ir à saúde privada, vai. Mas paga! E nós garantimos uma saúde de excelência no setor público, o que significa garantir bons salários aos profissionais de saúde.

O que eu verifico cada vez mais como historiadora do trabalho é que a saúde no sistema capitalista trata sobretudo da manutenção da força do trabalho. Mas as pessoas idosas, reformadas e com doenças crónicas estão a ter (várias notícias o indicam e a estatística que acabei de citar) restrições no acesso aos cuidados de saúde. Ou seja, aqueles que já não são produtivos, apesar de terem contribuído imenso para a riqueza social do País, estão a ter cuidados de saúde restringidos. Isto do ponto de vista social é bárbaro. Estamos a falar de uma degradação imensa da qualidade de vida que na minha opinião terá impacto, mais cedo ou mais tarde, não só na taxa do bem-estar da população, da saúde social e psíquica, mas também ao nível da esperança média de vida. Porque veja: eu no outro dia falava com uma médica nutricionista e citei-lhe o estudo da Lancet, publicado no ano passado, que atribui às medidas de austeridade um aumento de 10% na morte dos idosos por infeções respiratórias. E ela levanta a hipótese de fome. «Fome?», interroguei. E ela repetiu: «Sim, fome!» Porque há fome específica e fome calórica, ou seja, há pessoas que consomem calorias suficientes para estar vivas mas não consomem nutrientes para ter um sistema imunitário forte e resistente. E essa questão da alimentação é central na saúde, a montante destas de que estamos a falar, mas central.

E fugindo um bocadinho à questão do SNS para a questão da fome, questiono: as pessoas têm verdadeiramente acesso aos melhores cuidados de saúde, à melhor forma de se manterem vivas e com qualidade de saúde que nós, como sociedade podemos, hoje, no século XXI, com tanta produção agrícola, com tanta produção científica, dar-lhes?

Eu acho que esta é uma questão fundamental, civilizacional.

 

No livro é dito que a produtividade da gestão empresarial é mais baixa que nos hospitais geridos pelo SNS?

No Quem Paga o Estado Social? fizemos essa contabilidade e constatámos que houve uma perda de produtividade de 0,5 a 1,5% nos hospitais públicos com gestão empresarial. E creio que se compreende, porque é suposto estes darem lucro em vez de prestarem um serviço. Porque racionalização e racionamento não são o mesmo. Racionalização produtiva é algo muito correto. Se a racionalização produtiva tem o fim de produzir riqueza – ou seja, nós vamos aqui ver como é que tratamos as pessoas sem desperdício e sem consumos inúteis –, isso é correto. O problema é que num sistema virado para o lucro a racionalização transforma-se em racionamento. Às vezes até se transforma no contrário! Por exemplo quando numa ida a um hospital privado são pedidos 8 exames, porque são todos pagos pela ADSE, e metade dos quais podiam não ser precisos. Ou se a opção é a compra de uma máquina de TAC da Siemens ou da GE que custa meio milhão de euros, sendo que 300 mil são certificações pagas pelo Estado, ao invés de se comprar uma outra por 1/3 do preço que faria exatamente o mesmo serviço.

 

Qual tem sido o papel dos profissionais na maior ou menor mercantilização dos serviços públicos?

Há uma investigadora britânica, Ursula Huws, que tem estudado como na globalização capitalista é cada vez mais difícil mercantilizar a saúde e a educação. E a razão que aponta é que um mecânico sabe que o seu automóvel é uma mercadoria. Um médico ou professor têm dificuldade em lidar com o seu doente ou o seu aluno como um valor de troca, como uma mera mercadoria – mercadoria educação ou mercadoria manutenção, saúde. E olham-nas como valores de uso, como seres humanos que precisam de ser educados e tratados. E portanto é muito difícil convencer aqueles profissionais. Todo o processo de privatização e mercantilização da saúde dos Serviços Nacionais de Saúde tem lidado com resistências inconscientes. Há diretivas para a escola, mas os professores não as aplicam bem assim, ou há diretivas para os hospitais que os profissionais de saúde consideram que não estão bem assim e dão a volta ao assunto. Isso tem obrigado todas essas instituições, como o Banco Mundial, etc, a procurar todos estes esquemas como o pacote de cuidados que o SNS pode prestar para ultrapassar aquilo que são resistências inconscientes dos profissionais, no fundo a diminuir a qualidade dos serviços prestados. E uma das situações graves para que esta investigadora aponta é a diferença introduzida no mundo anglo-saxónico entre health e care, ou seja, cada vez mais os serviços públicos de saúde providenciam health, que é uma manutenção básica dessa mercadoria força de trabalho, mas tudo o que tem a ver com cuidados que eu não sei qual é o termo que cá se usa, se são cuidados continuados ou paliativos, portanto tudo o que tem a ver com a não-força de trabalho – pessoas que já estão reformadas ou pessoas com doenças crónicas ou doenças terminais, tudo isso sai da área do health, passa para a área do care e é totalmente privatizado. Claro que isto não é feito repentinamente, ou seja, primeiro dizem que o SNS continua a financiar o dito care – doentes com cancro ou doença terminal vão para uma dita instituição privada e o SNS continua, durante um período, a pagar, até diminuir a resistência social e então é totalmente privatizado. Esta é mais uma das formas para destruir o SNS.

Estão a restringir a saúde, a dividir a saúde e, ou os Portugueses reagem massivamente a esta regressão social ou mais vale não viver num país assim. Um país que assiste passivamente a os seus idosos não terem acesso aos cuidados ou ousar dizer-se à pessoa que como tem um cancro terminal paga para ter acesso aos cuidados porque o governo assim o considera, se chegamos a este ponto, então já nada vale a pena.

Vale a pena lutar?

Em Portugal, por causa da vigência do pacto social (os trabalhadores abdicam de luta estratégicas contra o Estado e o capitalismo e em troca têm certos direitos sociais), criou-se a ideia de que basta haver uma pequena greve, às vezes uma grande greve geral, e os patrões ou o governo cedem, negoceiam. Ou então que os sindicatos conseguem reverter grande parte das injustiças pela via judicial. Isso acabou, creio. 2008 marca o fim do pacto social em Portugal. Não há cedências quase nenhumas, mesmo com 3 greves gerais. Por isso há que reinventar o conflito social se se quer manter níveis básicos de vida com qualidade e não ser reduzido a um estado vegetativo e a um salário de reprodução biológica (comer, trabalhar ou chorar no desemprego). As formas actuais de luta são de um modelo de trabalho – fixo, protegido, em que não se podia ser despedido de qualquer maneira –, que já não existe.

É normal que quando se chama um plenário de trabalhadores precários eles não vão porque têm medo de ser despedidos. Não é porque aceitam a vida miserável que têm ou porque são cobardes. É normal as greves não terem adesão também, mas não só, porque não há fundos de greve.

Os trabalhadores estão convencidos de que são mais fracos porque perderam direitos, mas eu estou convencida de que, de certa forma, os laços económicos potenciam formas de luta mais fortes – há uma fraqueza no modelo flexível, que é que cada vez mais trabalhadores estão ligados numa cadeia produtiva. Dou alguns exemplos:

Como se lutava no século XIX? Por exemplo, havia organização clandestina de greves de precários (chamados então trabalhadores à peça). Organização de uma greve de forma clandestina em que na hora de parar param todos, sem que se possa apontar culpados e fazer despedimentos. Greve no local de trabalho de braços caídos, com prévia organização clandestina, era outra forma. A maior federação sindical dos trabalhadores do ramo automóvel dos EUA nasceu de uma greve organizada clandestinamente na Ford –também contra o governo de Roosevelt –, nos anos 30.

Pode-se parar um sector chave – por exemplo, maquinistas – fazendo um fundo de greve colectivo de outros trabalhadores do país que reverte para quem entra em greve e enfrenta, em nome de todos, o poder patronal. Assim pára-se todo o país sem que as pessoas percam o salário porque cada um terá de contribuir muito pouco para um fundo de greve colectivo e como os transportes são um sector chave, toda a produção fica questionada. Os enfermeiros podem parar um sector – que recebe os doentes no sector informático, por exemplo – e fazer um fundo de greve para pagar a esse sector. Não sei, diria: inventem! (risos) O que não pode é haver um suicídio colectivo. Greves de solidariedade, greves que mobilizam as populações locais – a família, o bairro; greves com ocupação do local de trabalho quando há despedimentos, como no 25 de abril, outro exemplo. No passado lutou-se e venceu-se, quando não havia direitos, lutou-se sob ditaduras, como é que agora não se luta?

Depois há um problema geral de comunicação – as organizações de trabalhadores lamentam que não têm acesso à comunicação social, mas veem-se poucos esforços no sentido de construírem comunicação social de massas alternativa. Os jornais partidários são em geral muito panfletários, não têm estudos sérios. Uma pergunta: não seria normal a CGTP ter uma TV por cabo, plural, aberta a todos os sectores de trabalhadores? Ou haver cooperativas de informação? Não sei se é esta a solução, mas sei que na viragem do século XIX para o século XX, em Portugal havia mais de 600 jornais do movimento operário – agora há o lamento de que a comunicação social paga pelos patrões não lhes deixa espaço…que é o mesmo que lamentar que o limão é ácido ou que a chuva molha.

Acredito que as pessoas podem reagir. Por isso não me fui embora e recusei agora sair do país, na verdade recusei ficar lá fora onde ia ganhar mais, mas ia também perder noutras coisas, claro. O meu caso pessoal é irrelevante, mas só o fiz porque acho que não temos pela frente décadas de regressão social irreversíveis – se achasse ou se vier a achar que temos algumas décadas de miséria e aceitação desta tirania económica, vou-me embora. Mas hoje acredito que as pessoas podem reagir e têm capacidade para reagir como tiveram no 25 de abril. Somos muito mais educados e cultos, temos 1 milhão e 300 mil licenciados em Portugal, mais de 30 mil doutorados, temos um país muito mais urbano e temos padrões de desenvolvimento que apontam para que as pessoas não tolerem isto. As sociedades mais agrárias e menos educadas tendem a não ir para situações revolucionárias ou de erupção social tão facilmente. Também temos menos forte o escape da emigração (a Europa quase toda tem massas gigantes de desempregados) e um congelamento da mobilidade social – são válvulas de escape que tendem a diminuir.

Por outro lado, acho que esta força de trabalho está muito fragilizada do ponto de vista organizativo e que até pode ter dificuldade de acreditar em si própria.

É verdade que tem uma força social muito grande por outras razões, nomeadamente porque nós vivemos num modelo “just in time”, ou seja, a ligação à economia é muito forte. Hoje em dia um grupo de enfermeiros que pare o setor dos hospitais pára virtualmente o País, porque o País não aguenta hospitais parados. Ou os estivadores que fazem greve param toda a cadeia porque nós estamos permanentemente dependentes de mercadorias que chegam diariamente. E portanto eu penso que há aqui uma força social e por outro lado estamos muito mais internacionalizados, globalizados, os protestos tendem a ser repetitivos no bom sentido da palavra, ou seja, o exemplo de um protesto num país tende a passar para outro país. E portanto penso que tudo isso são fatores que nos devem deixar otimistas e acreditar que a população chegará a uma posição de força e não deixará isto avançar.

Mas também é possível haver uma regressão social histórica durante uma ou duas gerações até que as pessoas achem que é intolerável e reajam.

Como caracteriza a organização dos trabalhadores?

A organização sindical e política é um grande desafio e é o calcanhar de Aquiles do movimento social. Nos últimos três anos greves gerais e manifestações demonstraram que há uma força social de grande resistência, ou seja, as pessoas acham realmente intolerável, por exemplo, não haver um Serviço Nacional de Saúde. A média dos Portugueses acredita no SNS, acredita na educação pública, acredita no valor das reformas e no contrato social. Mas a debilidade organizativa, não só do ponto de vista sindical mas também do ponto de vista político, parece-me óbvia. Eu creio que há uma falha óbvia resultante de que as organizações dos trabalhadores não conseguiram dar resposta à precarização da força de trabalho e ao desemprego. Não há organização neste sector e estamos a falar de metade da força de trabalho. Por outro lado, há esta permanente heterogeneidade dos setores dos trabalhadores, ou seja, a ideia de que o médico é privilegiado, que o estivador ganha muito, que o enfermeiro quer fazer muitos turnos, etc, ou seja, há uma permanente competição em vez de solidariedade entre os trabalhadores, quando é óbvio que qualquer português devia pensar em se solidarizar com o enfermeiro, com o professor, com o médico, com o estivador porque isto é uma cadeia produtiva que funciona como um só.

E falha também a memória histórica organizativa. É muito curioso ver o contraste entre o padrão de organização dos reformados que têm uma memória muito politizada do maio de 68, do 25 de abril, e têm uma extraordinária capacidade de organização, e a debilidade organizativa dos movimentos sociais dos setores precarizados que levam muitas vezes horas a entenderem-se só sobre o método de votação. Obviamente que depois aquilo morre sem ter consequências.

Eu acho que a precarização desta metade da força de trabalho só foi possível porque se arranjou uma série de expedientes e é preciso dizer que houve alguma responsabilidade ou alguma falta de visão estratégica por parte dos sindicatos, nos anos 80, quando aceitaram massivamente a possibilidade das reformas antecipadas ou processos de reestruturação da força de trabalho em que os que vinham de abril conservavam direitos e os mais novos eram admitidos com menos direitos. Portanto, pouco a pouco, foram entrando no mercado de trabalho pessoas sem ou com menos direitos, que hoje são uma força social objetiva para pressionar os salários dos que ainda os têm. Há mais de 2 milhões de pessoas (das quais 1 milhão e 400 mil pessoas desempregadas e desesperadas para trabalhar) que são uma pressão objetiva sobre quem ainda tem direitos.

 

Diz que há um estudo que demonstra não ser verdade aquela ideia do senso comum de que diretores de empresas, diretores financeiros, etc, estão mais sujeitos à penosidade?

Isso é um estudo britânico que teve muito impacto na altura, porque é um estudo que calcula a esperança média de vida com fatores sociais, nomeadamente com a origem e a classe social das pessoas. Uma das conclusões muito interessantes do estudo é pôr em causa esse mito que nós temos do senso comum, caricatural, de que um CEO ou um gestor de uma empresa snifa muita cocaína e sofre tanto stress que acaba por morrer de ataque cardíaco com 50 anos. Ora o que o estudo vem dizer é que isso não é verdade. Um gestor de uma empresa tem uma esperança média de vida muito superior à de um operário ou um trabalhador sujeito a mecanismos de hierarquia e controlo. Às vezes a diferença pode chegar a ser de 18 anos em média. O estudo foi à procura do porquê e uma das conclusões é que um gestor de topo produz adrenalina e outras hormonas que são de força e um trabalhador permanentemente sujeito a controlo e hierarquia produz outras que são de medo e de ansiedade, que debilitam o sistema imunitário, não o fortalecem. Isto está associado ao medo de perder o emprego, o medo de ser controlado, o medo de ser permanentemente vigiado ou de não conseguir pagar as contas todas ao fim do mês. Isto leva a uma degradação da saúde por produção de hormonas que debilitam o sistema imunitário. Por analogia, pensemos no caso dos enfermeiros e dos turnos permanentes, ou seja, todo o processo de sono/vigília é alterado, razão pela qual, em vários países, esses fatores eram altamente contabilizados para benefício salarial ou até para redução da idade da reforma.

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