História do Povo na Revolução Portuguesa, prefácio por Ricardo Antunes

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Militávamos na luta contra a ditadura militar brasileira quando, em 25 de Abril de 1974, a Revolução dos Cravos nos achou de surpresa. Amantes das revoluções que se perdiam pelo mundo, vivíamos mergulhados na era demente das contrarrevoluções.

Mas a tenebrosa ditadura brasileira não poderia impedir completamente as notícias que chegavam de Portugal: os militares haviam deposto a ditadura salazarista.           A espetacular notícia revigorava-nos: se ruiu a ditadura em Portugal, isso injetava ânimo na nossa luta para derrubar a ditadura brasileira, combinando ações legais, semilegais e clandestinas, da mesma forma que também atuavam as oposições em Portugal. A classe trabalhadora, os distintos partidos e agrupamentos de esquerda, os sindicatos de oposição e de classe, a juventude, a luta anticolonial e os movimentos de libertação na África Negra, etc., todos acabaram por provocar a derrocada cabal da ditadura salazarista.

Mas tínhamos também muitas dúvidas sobre o que se passava em Portugal.          Primeiro, por que pelas bandas do Brasil, tudo o que se noticiava era profundamente censurado e adulterado.

Segundo, e mais inquietante, como seria possível crer numa revolução a partir dos quartéis, quando no Brasil estes se haviam convertido em espaços do terror, geradores de um poder autocrático (um verdadeiro poder semibonapartista armado) praticante dos binómios ditadura/acumulação, repressão/internacionalização, tortura/monopolização, cujo objetivo basilar era destruir os movimentos de classe anticapitalistas para preservar e expandir o destrutivo sistema do capital?

Mas tínhamos também outras motivações e sentimentos auspiciosos: será que a Revolução dos Cravos seria o sinal de um novo ciclo revolucionário na Europa, derrotada desde os levantamentos de 1968 pelo controle social da produção?

São respostas que a leitura deste belo livro da historiadora social marxista Raquel Varela nos ajuda a responder, 40 anos depois. E, com isso, recordar um dos momentos mais expressivos da luta anticapitalista na antevéspera do flagelo neoliberal.

Raquel Varela é, desde logo, uma das mais brilhantes críticas sociais de Portugal dos nossos dias. Historiadora jovem, não viveu diretamente a Revolução dos Cravos, o que torna sua reconstituição e revisão historiográfica especial, pois a leitura de seu livro frequentemente se apresenta como uma cronologia própria daqueles que escrevem sobre algo que vivenciaram. Historiadora filha da Revolução de abril, ela já é responsável por uma vastíssima (e sempre muito qualificada) produção em Portugal e no exterior e é também do tipo de historiadora que mergulha no objeto de corpo e alma, para depois reconstituí-lo com rigor e acuidade.

Não faz esse movimento, entretanto, como uma investigadora neutra. Pelo contrário, combina seu olhar atento e crítico com um cuidado objetivo típico da melhor historiografia marxista. Que seu livro gerará polémicas, discordâncias, contraposições, críticas duras é o que se espera de um trabalho onde a classe trabalhadora, em sentido amplo, está no centro da investigação.

***

Raquel Varela demonstra que a Revolução dos Cravos só se torna compreensível se articularmos densamente os seguintes movimentos:

1) As lutas no continente africano pela independência (e dentro dele o papel dos trabalhadores, especialmente rurais) e a consequente corrosão na hierarquia militar em Portugal, decorrente da barbárie da guerra pelo domínio neocolonial e pelo decisivo levantamento dos jovens capitães (MFA) que empunharam os principais sentimentos populares da nação espoliadora para fora e também para dentro;

2) O papel central da classe trabalhadora em Portugal, depois de décadas de vigência de uma ditadura atroz e brutal. Destaca a autora o protagonismo desta classe – e em particular do operariado industrial – nas greves, ocupações, autogestão, caminhando para a constituição de facto de um dualismo de poder e, um elemento analítico chave neste livro, a existência de controlo operário que determinou a impossibilidade da governação frente-populista que agremiava PS, PCP, PPD e MFA.

Assim, o livro de Raquel Varela oferece um belo desenho desse período tão emblemático. Nas suas palavras: «Há poucos períodos na história (…) com a riqueza histórica da dimensão a que chegou este controlo no biénio 1974-1975 em Portugal. Encontram-se casos semelhantes no biénio rosso em Itália em 1919-20 ou nas revoluções russas de 1905 e 1917 e, por exemplo, mais recentemente, nos cordões industriais chilenos de 1972-1973.»

A riqueza de informações – há sempre uma detalhada cronologia dos acontecimentos operários e uma utilização ampliada de fontes, depoimentos, relatos, documentos – demonstra que o frequentemente menos visível no real da Revolução de abril está presente no dualismo de poderes instaurado nas ações concretas da classe trabalhadora: «A revolução portuguesa foi assim marcada pelo protagonismo político de um poderoso movimento operário e social – parte essencial da definição do próprio conceito de revolução – que atingiu todos os setores da sociedade portuguesa, em particular o movimento operário, mas não só. Para além dos trabalhadores diretamente ligados à produção de valor, e particularmente os operários industriais e assalariados agrícolas, a revolução portuguesa caracterizou-se por conflitos sociais muito radicalizados entre os estudantes, o moderno setor laboral dos serviços, o setor informal, uma ampla participação das mulheres e os setores intermédios e de base das forças armadas. A conflitualidade social em Portugal em 1974-75 teve uma amplitude nacional.» Greves, manifestações, ações coletivas, que, como quase sempre ocorrem nestes períodos onde tudo está em suspensão e pode perecer, que frequentemente avançavam em relação aos organismos tradicionais de representação das forças sociais do trabalho, como sindicatos e partidos, que acabavam não poucas vezes a reboque, quando não contrários às ações consideradas pela ordem como “selvagens”.

Saindo de um período das trevas, foi essa fase de lutas sociais agudas que permitiu a montagem de um Estado com conquistas sociais que perduraram até recentemente e que a génese e atual vigência do neoliberalismo na Europa e em Portugal procuram raivosamente destruir.

Combinando (naqueles momentos excecionais da história) ações fundamentais, a revolução só pode ser compreendida pela eclosão da luta anticolonial, conjuntamente com as ações de resistência em Portugal e nas colónias, abrindo o ciclo de resistência e revolução. Mais do que um movimento de capitães, ela se insere também nas divisões existentes dentro das classes dominantes, no desgaste da guerra colonial num período de crise económica profunda, a chamada crise do petróleo de 1973, além da crise política e militar. Sua síntese é clara: «Compreendê-la, do ponto de vista historiográfico, implica recentrá-la na sua dimensão real, ou seja, recuperar, investigar, conhecer, catalogar os conflitos sociais. E relevar como protagonistas os sujeitos sociais (classes e suas frações), em alternativa a uma abordagem que olha a história pelo prisma dos sujeitos representativos (elites), procurando dessa forma eliminar do desenvolvimento social a noção de conflito coletivo.»

Quarenta anos depois da Revolução de Abril, que mundo temos? Na Europa (para não falar aqui de outros continentes), além de Portugal, os exemplos da Espanha, Grécia, Itália, Inglaterra, etc., todos esses países vivem a tragédia da desertificação neoliberal.

Mas todos eles – e tantos outros – já se adentraram numa nova era de rebeliões à escala global. Os levantamentos sociais não param de aflorar e quando se reduzem em países ou regiões, renascem em tantas outras partes. Transformar a era das rebeliões numa era das revoluções tornou-se um imperativo vital do século XXI. E relembrar a história da Revolução de Abril, nas suas complexidades, como faz Raquel Varela, é parte dessa batalha neste nosso atormentado século XXI.

Ricardo Antunes[1], dezembro de 2013

[1] Ricardo Antunes é sociólogo, autor de Os Sentidos do Trabalho, Coimbra, Almedina, 2013.

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