Garcia Márquez 1975: “Lisboa é a maior aldeia do mundo»

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No verão de 1975 Lisboa recebe um dos maiores escritores do mundo, Gabriel Garcia Marquéz, conhecido pelos amigos com o nome carinhoso de Gabo, que ficará no país 15 dias, onde fará um conjunto de reportagens que publicará na Colômbia, na revista Alternativa , que ele próprio tinha fundado com intelectuais de esquerda, em 1974: «Encontrou-se com escritores e poetas, comoveu-se com o processo revolucionário» . Maria Velho da Costa, Luís de Sttau Monteiro, José Gomes Ferreira, José Cardoso Pires, Saramago estiveram entre os encontros de Garcia Márquez naqueles dias fez em Lisboa. Foi o jornalista Ricardo Rodrigues que, quase 35 anos depois, nos contou esta história:

«García Márquez aterrou no aeroporto da Portela no primeiro dia de junho de 1975, proveniente de Roma. “Tive a sensação de estar a viver de novo a experiência juvenil de uma primeira chegada. Não só pelo verão prematuro em Portugal e pelo odor a marisco, mas também pelos ventos e pelos ares de uma liberdade nova que se respiravam por toda a parte (…).” Um artigo chama-se ‘Portugal, território livre da Europa’ e é pura reportagem, descrições de ambientes, de cheiros e das vivências de rua. Outro, ‘O socialismo ao alcance dos militares’, um ensaio sobre a revolução portuguesa e o facto de as Forças Armadas terem organizado um golpe sem quererem guardar o poder para si. E ainda há um texto sobre o xadrez político do período revolucionário, as pressões europeias e americanas, os movimentos de organização popular. O título dessa reportagem, a segunda, encerra uma daquelas perguntas que ficaram até hoje por responder: “Pero que carajo piensa el pueblo?”»

Garcia Márquez descreve uma Lisboa – a quem chama «a maior aldeia do mundo», pela intensa vida social e socializante que nela se vivia – cidade militante, que não dorme:

«Toda a gente fala e ninguém dorme, às quatro da manhã de uma quinta-feira qualquer não havia um único táxi desocupado. A maioria das pessoas trabalha sem horários e sem pausas, apesar de os portugueses terem os salários mais baixos da Europa. Marcam-se reuniões para altas horas da noite, os escritórios ficam de luzes acesas até de madrugada. Se alguma coisa vai dar cabo desta revolução é a conta da luz.»

Diário de Notícias, 3 de maio de 2013 cit “Os Artistas com a Revolução”, In História do Povo na Revolução Portuguesa 1974-1975, Bertrand, 2014.

Nota: A imagem, cuja fonte não consegui ter a certeza, diz na legenda: Lisboa, Garcia Marquéz e Cardoso Pires, 1975.

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