O 25 de Abril é uma das revoluções mais importantes de todo o século XX

Entrevista ao Jornal i, 5 de Março de 2014.Diário Popular Nº 11601 27 MARÇO 1975. p19

O que significou o 25 de Abril para si?

É uma das revoluções mais importantes de todo o século XX: pela extensão da dualidade de poderes (comissões de trabalhadores, moradores, soldados). Trata-se, do ponto de vista da extensão deste poder paralelo ao Estado, de um processo histórico que tem muitas semelhanças com a revolução italiana de 1919-1920 (conhecida como bienio rosso), com a revolução húngara de 1956 e com a revolução chilena.

É também, e essa é outra característica importante, uma revolução na metrópole que se dá por força das revoluções anticoloniais (guerra colonial) nas colónias portuguesas.

É uma revolução democrática que se transforma numa revolução social. Aquilo que começou a 25 de Abril – um clássico golpe de Estado – é a semente de uma revolução social (que imprime mudanças nas relações de produção), encetada como uma revolução política democrática (que muda o regime político). Em poucos dias ou semanas, estava praticamente assegurada a substituição do regime político de ditadura por um regime democrático, mas tinham sido já lançadas as bases de uma outra revolução, que lutava pela igualdade social. Estas bases foram lançadas pelo sujeito social que, atrás do Exército (e por isso sem medo), entra na história – a classe trabalhadora e os sectores populares e estudantis. E quando entra na história, em breve saltaria à frente deste exército e passaria a constituir a frente da revolução, deixando o Movimento das Forças Armadas (MFA) a tentar compor o Estado, que entrara em crise com o golpe que o próprio MFA dera no regime.

A Revolução dos Cravos, que não se pode resumir ao dia do golpe, 25 de Abril (como recentemente têm feito, pressionando para só se celebrar o dia do golpe e não todo o processo), mas sim a um processo histórico de quase dois anos, é o momento mais democrático da história de Portugal. A democracia de base que vigorou, e que tinha centro nos locais de trabalho e habitação, colocou qualquer coisa como 3 milhões de pessoas a decidir, não por delegação de poderes de quatro em quatro anos, mas dia a dia como a sociedade devia produzir, ser gerida. Nunca tanta gente decidiu tanto em Portugal como entre 1974 e 1975.

A derrota da revolução – que começa a partir de Novembro de 1975 com a imposição da ‘disciplina’, isto é, da hierarquia, nos quartéis – é um balão de ensaio da chamada “contrarrevolução democrática” (teoria da transição democrática, segundo a politologia de inspiração liberal) que vai ser aplicada na Espanha franquista e depois em toda a América Latina nos anos 80, a doutrina Carter, ou seja, a ideia de que, pelo menos por um período largo, para derrotar processos revolucionários, as eleições e a democracia liberal eram preferíveis aos regimes ditatoriais. Portugal é o primeiro exemplo de sucesso de uma revolução derrotada com a instauração de um regime de democracia representativa que, para se impor, teve de pôr fim à democracia de base, nomeadamente nos quartéis, fábricas, empresas, escolas e bairros.

 

 O que descobriu ao fazer este livro?

Que revolução e Estado não andam em paralelo, como advogava o PCP, mas em oposição. Quanto mais forte era o Estado, mesmo que com o PCP ou o PS no governo, mais fraca era a revolução. E vice-versa – é este o princípio da dualidade de poderes. A revolução não está acabada em Agosto com a crise do MFA; pelo contrário, a crise do MFA vai levar a revolução à base do MFA, aos soldados. Mas um livro de história não é uma colecção de descobertas magníficas e surpreendentes. É mais fácil descobrir uma prova que tem muita força ou um testemunho único do que construir com base numa metodologia clara e numa teoria sólida uma explicação da totalidade do processo histórico. Foi isso que procurei fazer e isso é o mais difícil e o debate continua aberto: quando muda o regime? Quando se entra numa crise geral de Estado? Quando há saltos qualitativos na dualidade de poderes? É esse tipo de perguntas que me move. Mas em história começamos sempre pelos factos, claro. E há alguns surpreendentes, mas, ainda que irrefutáveis, só se podem compreender à luz de uma explicação que tenha coerência, junto com outros factos. Descobri num arquivo o momento em que Pinheiro de Azevedo disse que ia falar com Costa Gomes para uma solução militar, depois do cerco à Constituinte. Isto é muito relevante. É extraordinário, mas só ganha relevância se se percebe a provocação aos pára-quedistas, o desenvolvimento da coordenação das comissões de trabalhadores a partir de Abril de 1975 e sobretudo de Setembro, a disseminação das comissões de soldados depois de o MFA entrar em crise, em Agosto.

Surpreendeu-me a extensão da divisão da sociedade em classes sociais. Os trabalhadores viam-se como tal e tinham orgulho nisso. É provavelmente um dos raros momentos na história deste país (também aconteceu com sectores do movimento operário durante uma parte da I República) em que os trabalhadores têm orgulho em sê-lo. Ou seja, em que há força social para impor uma cultura que escape à ideologia hegemónica do trabalhador como alguém que trabalha porque há outros – muito inteligentes – que gerem por eles a produção. A ideologia das “empresas criam empregos”. Isto foi totalmente invertido na revolução – o trabalhador ganhou a centralidade cultural que corresponde ao seu papel económico.

Surpreendeu-me a imensa participação popular e de trabalhadores logo no próprio dia 25 de Abril, muito para além daquilo que se vê no Largo do Carmo.

Surpreendeu-me a participação feminina massiva e como os processos de lutas sociais nos locais de trabalho – as mulheres como trabalhadoras e não como mulheres – foi determinante para mudar coisas tão simples como poderem dormir fora de casa, no piquete da fábrica; cito vários exemplos muito interessantes.

Surpreendeu-me a extensão do impacto que tem na vizinha Espanha – Portugal é uma esperança. Tenho o documento de um advogado, que cito no livro, que vai defender um trabalhador, acho que é da Ibéria, que não foi trabalhar a seguir ao 25 de Abril porque queria vir ver a revolução. E também a ansiedade das chancelarias ocidentais com as comissões de trabalhadores.

Surpreendeu-me a coordenação das comissões de trabalhadores e moradores, que foi muito maior do que eu pensava e que chega a ter um impacto muito significativo a nível regional (em Setúbal chega a construir uma justiça paralela e não aceita as ordens dos tribunais), mas também a nível nacional, embora não suficiente para que se consigam coordenar e resistir ao 25 de Novembro.

Surpreendeu-me a grande diferença que existiu entre a autogestão (os trabalhadores serem “donos” da fábrica) e o controlo operário (o questionamento total da produção e a recusa em “gerirem a anarquia capitalista e serem patrões deles próprios”, para citar documentos da época).

Surpreendeu-me o número de greves de maio e junho de 1975 e o “assembleísmo” permanente nesse dois meses (que, quanto a mim, leva à queda do IV Governo – o caso República é a gota de água e o pretexto, mas o Governo cai pela extensão do controlo operário, contra o qual estavam quer o PS quer o PCP, mas que efectivamente começava a tornar impossível gerir o país em moldes capitalistas, aquilo que Eanes designaria como o “caos na produção”.

Surpreendeu-me o empirismo com que tudo isto foi feito ao nível da maioria das lideranças intermédias, grandes quadros políticos, porém. Quer ao nível do MFA, quer ao nível dos partidos, a estratégia que estava a ser conduzida fugia efectivamente à capacidade de interpretação da maioria das lideranças, da direita à esquerda radical. O desnorte dos oficias revolucionários não é mais significativo a este respeito do que o desnorte do PCP durante o V Governo ou o desnorte do PS face aos sindicatos. Soares, Costa Gomes, Cunhal, Melo Antunes actuaram com uma extraordinária consistência nos seus projectos, mas os seus braços direitos, quadros importantes destes partidos, do MFA, dão sinais de não saber o que se estava passar na totalidade, incluindo o próprio Otelo Saraiva de Carvalho.

Estive três anos em oito arquivos de quatro países. Há todo um mundo por descobrir nesta que foi a última revolução europeia a colocar em causa a propriedade privada dos meios de produção, esse estranho país da Europa que pela primeira vez tentava de forma consistente, mas com muito para aprender, governar-se a si próprio.

 

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2 thoughts on “O 25 de Abril é uma das revoluções mais importantes de todo o século XX

  1. Caríssima Raquel, sem tempo para delongas, gostei. Direi apenas que tanto quanto me lembro a revolução acabou no dia 1 de maio quando cunhal e soares subiram ao palco no estádio do mesmo nome. Sentiu-se. A multidão que saiu daquele estádio já não era a mesma que tinha entrado. A revolução una – que tinha começado muito antes como diz e bem, durou sete dias.

  2. “A revolução não é um acto curto, onde aconteçe algo e depois é tudo diferente. A revolução é um longo e complicado processo onde a pessoa se tem de transformar”
    (Rudi Dutschke)

    Olhando para Portugal – de fora do pais – actualmente e nos ultimos 40 anos, vendo uma sociedade ainda um quanto “antiquada” ainda com senhores DR’s para licenciados, praxes medievais nas escolas superiores, a muita dificuldade de lidar de uma forma “adulta” com processos democraticos (em vez de sempre culpar politicos eleitos uns meses antes) pergunto-me se realmente houve uma revoluçao. Na definiçao de Tocqueville concerteza, mas certamente nao no sentido de Dutschke – crear um novo homem/cidadao.

    Ao contrário da revolução italiana de 1919-1920, da revolução húngara de 1956 – ou recentemente no Maidan de Kiev – onde um povo unido, nas ruas, derrubou o governo, em 1974 em Portugal foram os militares q deposeram o governo …. o motor (ou causa proxima) do 25 de Abril nao foi descontentamento do povo com o Estado Novo mas sim o descontentamento de militares com a guerra colonial …. a resistência oriunda das massas ao Salazarismo durante 40 anos foi pratuicamente zero. Isto dito, pode se assumir q sem a guerra colonial e sem a actividade dos movimentos de libertaçao não há 25 de Abril de1974 . O povo por iniciativa propria não teria derrubado o governo.

    O que segue com as reformas agrarias, as “guerras” entre partidos e movimentos, o 25 de Novembro etc foram coisas muito excitantes – e loucas de viver – mas em quase nada as pessoas ou a nacao evoluiram; arrisco dizer q a integraçao na Europa contribuiu muito mais para as “mudanças” em Portugal nos ultimos 40 anos do q o 25 de Abril.
    Salazar é votado na RTP como o maior português, a AR proíbe capitaes do 25 de Abril de falar durante as comemoraçoes ….. e por aí a fora; enquanto o povo sai á rua, cantando a “Grandola” sem mudar absolutamente nada (como foi nos 40 anos do EStado Novo), governantes eleitos continuam os seus abusos civicos.

    O que faz falta, não é animar a malta, o que faz falta é ….. I N T E G R I D A D E !!!!!
    (mas para isso é necessário um novo cidadao …. mulheres e homens q passam por um processo de tranformação! só derrubar governos nao chega !!

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