Somos também do tamanho dos nossos sonhos

Há uns anos iniciei aquilo que então me parecia impossível, estimulada por José Alen, da Galiza e Rúben Vega, de Gijón e por um grupo de operários navais das Astúrias (cuja luta tinha inspirado o filme Los Lunes al Sol) e pelo exemplo da Lisnave em Portugal. Ajudar a construir uma equipa e um modelo de investigação para um projecto mundial de estudo do trabalho na indústria naval, desde a II Guerra Mundial até aos dias de hoje.

Interessava-nos a precarização da indústria na Europa mas também como se organizavam os trabalhadores na então florescente indústria naval na Coreia do Sul. Interessava-nos perceber o que tinha em comum a comissão de trabalhadores da Lisnave e de Naval Xixon. Queríamos perceber os mecanismos de deslocalização de parte do processo da construção. A força de trabalho imigrante da Suécia para Portugal e de Portugal para o Dubai. Percorreríamos a cadeia produtiva, do minério recolhido para aço com trabalho infantil na Amazónia até ao topo de gama da indústria de motores na Europa do Norte. Queríamos perceber o que tinham em comum aqueles operários que falavam dos navios como se fossem anos de vida, fossem brasileiros ou australianos.

Um ano e meio foi o tempo que necessitámos só para montar uma equipa de cientistas do Japão à Argentina que quisessem levar este trabalho a bom porto. Hoje o projecto está a navegar – somos 40 investigadores de todo o mundo e entregámos agora os primeiros dados empíricos de mais de 30 estaleiros navais. Publicámos entretanto vários livros, apresentámos dados regionais (Escandinávia, Cone sul) e eu hoje sou uma mera coordenadora, mais uma investigadora do trabalho naval, pois muito do que foi feito entretanto foi-o exclusivamente por iniciativa dos vários investigadores do projecto.

Quando digo que me parecia impossível, digo a verdade. Não queríamos literatura secundária sobre países onde não conhecíamos ninguém como o Japão ou a China ou a Roménia ou a Turquia, queríamos investigadores que estivessem lá, fossem de lá, conhecessem as fontes primárias, reflectissem sobre o trabalho e a economia. Temos hoje um grupo de investigadores entre os 30 e os 70 anos, uns no doutoramento, outros directores de centros prestigiados.

Hoje este projecto é uma parte da minha vida, muito do que aprendi como historiadora do trabalho devo-o a ele. Ganhei amigos entretanto, conheci famílias, construímos afectos, entre dados estatísticos, perguntas difíceis, risos, conferências e jantares onde (até) se canta «músicas do trabalho» da Noruega ao Japão. E está só agora a começar – temos pela frente um estudo da história global, depois um estudo da cadeia produtiva: do minério à destruição dos navios no Bangladesh. Se tudo correr bem daremos notícias durante os próximos anos ou décadas. Este projecto é tão grande quanto o tamanho dos sonhos, meus e de todos os que se envolveram desde o início.

Fizemos agora esta carta conjunta contra o encerramento de um estaleiro na indústria que vai lançar para o desemprego trabalhadores na Turquia. Para além de investigadores somos pessoas que vimos de ideologias e paixões diferentes (a maioria de nós conheceu-se no projecto), formas distintas de ver o mundo, mas temos algo em comum – o trabalho não pode ser um lugar de inferno em que só há outro inferno pior que é o desemprego. O trabalho tem que ser antes, como é para nós, um espaço de liberdade e criação. E, também por isso, de afectos.

Workers, Scholars, and Activists in Support of the Preservation of the Haliç Shipyard

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