“A grande proposta é comermos os velhos para ficarmos com as reformas e ao mesmo tempo aumentar os níveis de produtividade porque vão servir de carne para alimentar muita gente”, explica Raquel Varela.
Este espectáculo, que Varela e Zink hesitam em classificar como conferência, performance ou stand up, recorre, naturalmente, a uma estratégia de trazer o absurdo para a boca de cena a fim de ajudar a enfrentar mais claramente os factos. E fala-se de factos porque Raquel Varela leva consigo estudos sobre questões de trabalho, segurança social e Estado social, trocando a seriedade académica pela desconstrução sarcástica.
“Estando nós numa situação de emergência nacional – não para pagar a dívida mas para pôr fim a esta política –, achámos que o nosso contributo era importante”, confessa a historiadora, admitindo um “objectivo declarado de intervenção social” na apresentação de Uma Modesta Proposta…, ideia nascida após o encontro dos dois no Festival Literário da Madeira para discutir A Arte de Pagar as suas Dívidas, de Balzac.
A reboque da proposta principal, os conferencistas avançam com outras ideias que promovam a produtividade e que, em sentido contrário, chamem a atenção para a crença de que “uma sociedade não se deve orientar por relações mercantis” ou arrisca-se a perder “qualquer tipo de valor humano, social e civilizacional – podemos acabar a vender os nossos pais, os nossos avós, a Auto Europa pode passar a fabricar tanques em vez de carros, podemos produzir armas em vez de comida”. Quanto ao propalado regresso aos mercados que provoca insónias aos governantes, Varela e Zink acreditam que deveria significar, antes de mais, a possibilidade de muitos voltarem a carregar uma sacada de legumes, fruta e peixe fresco para abastecer o frigorífico e a despensa.
UMA MODESTA PROPOSTA PARA TIRAR O PAÍS DA CRISE
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