Um dia belo também por causa de Salgueiro Maia

A mais conhecida coluna do golpe militar foi protagonizada pelo capitão Salgueiro Maia cuja função não era tomar nenhuma unidade mas sobretudo atrair para o Terreiro do Paço, no centro de Lisboa, à beira Tejo, as unidades afectas ao regime. Pouco depois da 1 da manhã Salgueiro Maia acorda as suas tropas, na unidade da Escola Prática de Cavalaria de Santarém e manda-os formar. Na parada fez um discurso que se tornou famoso: «Há diversas modalidades de Estado: os Estados socialistas, os Estados corporativos e o estado a que isto chegou! Ora, nesta noite solene, vamos acabar com o estado a que chegámos. De maneira que quem quiser vem comigo para Lisboa e acabamos com isto. Quem é voluntário sai e forma. Quem não quiser vir não é obrigado e fica aqui»[1].

Todos se oferecem como voluntários. Dos 500 em serviço só 240 podem seguir para Lisboa. Antes das 6 da manhã a coluna entra em Lisboa e toma posição no Terreiro do Paço.

No Terreiro do Paço dá-se a mais conhecida cena militar do 25 de Abril. O brigadeiro Junqueira avança pela Avenida da Ribeira das Naus, junto ao Tejo. Salgueiro Maia dirige-se a eles com um lenço branco. O brigadeiro, nervoso, dá-lhe ordens de ir para a retaguarda da sua força. Salgueiro Maia propõe então que falem a meia distância entre as duas colunas. O brigadeiro, exasperado, dá ordens ao aspirante Sottomayor que abra fogo, mas este recusa e de imediato ouve voz de prisão.

«Dá de seguida a mesma ordem aos apontadores dos carros de combate, que também recusam. Isolado, Junqueira vai à Rua do Arsenal, onde estava o resto da sua coluna, e bate em retirada. Os que ficaram juntam-se às tropas de Maia»[5].

O MFA faz mais de um dezena de comunicados e em quase todos pede para as pessoas ficarem em casa. Mas as pessoas não ficam.

Salgueiro Maia glorifica aquele dia:

«Quando nós seguíamos do Terreiro do Paço para o Quartel do Carmo, acontece a maior apoteose que eu alguma vez vi, e que dificilmente se poderá repetir, em que as pessoas choravam e se abraçavam. É em apoteose que chegamos ao Rossio»[1].

A população em fúria tinha-se dirigido de imediato também para os outros símbolos do regime – para os serviços de censura, para as sedes do partido único, a ANP (Ação Nacional Popular), para a sede da temerosa polícia política, PIDE-DGS; para a sede do jornal do regime A Época; para as prisões exigindo a libertação dos presos políticos.

Ainda no Carmo ouve-se a voz de Salgueiro Maia descrita pelo jornalista da RTP: “Manda que as forças apontem para o edifício. Há pouco fez um ultimatum a dizer que se não sair do coronel mensageiro, será destruído o quartel…de modo que estamos num… num momento extremamente importante, assustador até e, acho que chegámos ao climax deste sítio à volta do Quartel do Carmo…»

No Carmo não cabia nem mais uma pessoa. «Entretanto (contínua o jornalista em directo para a RTP) as pessoas que estão aqui ocuparam os carros da tropas, e estão em pé em cima deles. Agarrados na fontes, nos vários andares dos vários edifícios que aqui estão, nos passeios…Verdadeiramente surpresos pela multidão. Os soldados foram incapazes de conter a pessoas (…) Há…olha, agora abre-se aqui uma janela no primeiro andar e o capitão Maia vai falar»

-Meus senhores peço o favor de retirarem da zona para podermos portanto reunir as forças, organizar a coluna. Terão muitas oportunidades para vitoriar… (interrompido por gritos).

Caetano, sitiado a ouvir o capitão Salgueiro Maia de megafone a dizer que ia bombardear o Quartel, com a população a recusar-se retirar, pediu por favor que ao menos o deixassem entregar o poder a um general. Tinha ruído a mais longa ditadura da Europa do século XX.


[1] LEIRIA, Luís, «O Cravo, símbolo da revolução» In PAÇO, António Simões do, Os Anos de Salazar, Lisboa, Planeta D’Agostini, 2008, p. 27.


[1] LEIRIA, Luís, «O Cravo, símbolo da revolução» In PAÇO, António Simões do, Os Anos de Salazar, Lisboa, Planeta D’Agostini, 2008.

[2] Regimento Cavalaria 7

[3] Regimento Lanceiros 2

[4] Falta citação

[5] LEIRIA, Luís, «O Cravo, símbolo da revolução» In PAÇO, António Simões do, Os Anos de Salazar, Lisboa, Planeta D’Agostini, 2008, p. 24-25.

 

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