As organizações de trabalhadores falharam na organização dos trabalhadores. Começar por reconhecê-lo é necessário para mudá-lo

A  taxa de sindicalismo no sector privado é de 9%, no público de 18%. Tem vindo sempre a cair. Metade da força de trabalho, desempregada e precária, está fora de qualquer tipo de organização sindical. Os partidos que deveriam representar os trabalhadores têm, apesar da crise da direita e da crise da social democracia, uma escassa representação.  Têm mais representação eleitoral do que social, mas mesmo a nível eleitoral pífia face ao desgaste dos partidos do chamado centrão. Há poucos sindicatos, embora haja excepções, com quadros jovens à sua frente, capazes de dirigir. O mesmo se passa nos partidos políticos – a maioria dos quadros, não falo de figuras públicas, mas quadros com real capacidade de liderança, está perto dos 60 anos. Das duas uma: ou achamos que o povo é estúpido e então propomos como Brecht, trocar o povo e deitar este fora, ou temos que reflectir sobre o porquê de tanta debilidade organizativa.

Creio que uma das explicações, uma, haverá outras, está no pacto social – esta ideia de que o capitalismo português pós 25 de abril permitiria um modo de produção em que os trabalhadores eram, digamos assim, «matizadamente» explorados não assumindo por isso um confronto directo com o Estado – salários razoáveis, direito a não ser despedido, subsídio de férias,numa palavra, relações de trabalho-padrão. Mas, a maioria da população, sobretudo  jovem não sabe nem o que isso é, o que é ter um contrato de trabalho, nem conseguem ganhar o suficiente para sair de casa dos pais com 35 anos. E por isso não se revêm nas propostas mediadoras deste pacto social ao qual não pertencem. Há um desencontro histórico, ainda, entre as direcções dos sindicatos e partidos e a maioria da população. Pode-se esconder a cabeça na areia e dizer que não é verdade mas então não conseguimos explicar porque há força social para fazer as maiores manifestações da história do país, 3 greves gerais, e o resultado organizativo disso é zero. E, claro, como o resultado organizativo não é nenhum (as manifestações acabam mas as pessoas vão para casa não vão organizar-se como força social num partido, sindicato ou movimento real permanente), o impacto político é escasso e o governo mais contestado de sempre da história pós 1974 continua de pé. 

Advertisements

2 thoughts on “As organizações de trabalhadores falharam na organização dos trabalhadores. Começar por reconhecê-lo é necessário para mudá-lo

  1. Em que medida a desigualdade na condição laboral está implicada na falta de solidariedade entre os trabalhadores? Não seria expectável que fossem os trabalhadores com mais direitos a estarem particularmente sensíveis à realidade dos demais? Estabelece um nexo causal entre os filhos estarem em casa até mais tarde com a perda de direitos dos pais, não consegui acompanhar este seu raciocínio.

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s