Um Passe Livre para a Vida Civilizada

Vivo entre Lisboa e a Holanda e tenho a sorte de viajar quase todos os anos para o Brasil.

Chego ao Brasil sempre recebida com o carinho de grandes amigos, a sabedoria dos meus colegas das universidades brasileiras, com quem fiz grande parte do meu percurso académico e aprendi tanto. Mas quando chego ao Rio e a São Paulo vou sempre dividida entre o desejo dos debates desafiantes na academia, a festa com os amigos à volta de um «escondidinho baiano», e a exaustão pela ausência de mobilidade e ansiedade da violência social e policial.

Vejo por isso agora, de longe, a luta dos jovens pelo passe livre, com muita admiração.

Esta é quase uma carta de turista porque desconheço os dados concretos essenciais, que certamente quem está no Brasil já avaliou: qual é o impacto na esperança média de vida das horas perdidas em transportes ineficientes; qual é a quebra que, representa na produtividade, horas em filas de trânsito; quantos acidentes há pela escolha do automóvel privado como meio de transporte; qual é o impacto ao nível cardíaco, a médio prazo, de não conseguir dormir em silêncio; qual o impacto na saúde pública da poluição nestas cidades; qual o impacto no desenvolvimento infantil da ausência de espaços livres e amplos nas cidades; se contarmos o tempo em transportes qual é a real jornada de trabalho média nestas cidades.

Na Holanda tenho um autocarro de 10 em 10 minutos, até pode vir vazio, mas chega de dez em dez minutos. E o motorista, protegido por leis laborais e salários decentes, conduz-nos com candura; quando vou a um concerto de música clássica o bilhete de eléctrico é gratuito e está incluído no bilhete de música; frequentemente tenho boleia com o ex director do meu instituto, hoje com 66 anos, um dos maiores institutos do mundo na área, na parte de trás da sua…bicicleta. Ele nunca tirou a carta de condução e nunca teve carro. A Holanda é o único país que conheço na Europa (e conheço-os a todos) onde ainda hoje as crianças, grande parte delas, de 7 e 8 anos vão sozinhas para a escola porque há uma lei que limita a 30 km por hora a velocidade dos carros e porque a maioria das pessoas de facto anda de transporte público.

Quando aterro em São Paulo ou no Rio vejo-me a braços com uma maratona exaustiva – 1 a 2 horas para chegar do aeroporto ao centro, filas intermináveis, poluição insuportável. O metro é acessível às zonas ricas e há momentos inusitados onde são destacados trabalhadores para empurrarem as pessoas para as portas; quando arrisquei andar de ônibus, entre esperas de 30 a 40 minutos, fui colocada numa aventura de excesso de velocidade, solavancos, travagens perigosas, rodeada de senhoras idosas em pânico da condução absolutamente imoral; com frequência não consigo ver todos os meus amigos porque, apesar de ter levado 10 horas para atravessar o atlântico, ir a casa de um jantar pode levar 2 horas para ir e 2 horas para voltar, mesmo que seja às 2 da manhã.

É certo que também vivo em Lisboa, cidade onde o passe social foi conquistado durante a revolução há quase 40 anos e onde hoje, em nome do pagamento de juros da dívida dita pública e de outras rendas fixas de capital, o preço dos transportes disparou, colocando uma imensa quantidade de gente presa em casa sem mobilidade.

Esta luta pelo «passe livre» soa-me por isso a algo familiar, algo como, cumprir um ideal.
Raquel Varela, Historiadora

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4 thoughts on “Um Passe Livre para a Vida Civilizada

  1. A Holanda que nos olha como um pais do 3º mundo e que faz parte da Espanha. Tem uma mentalidade completamente oposta á da Lusitana nação, andar de bicicleta cá é moda e snob, basta ver os inumeros Audis, BMW e Mercedes comprados em 5ª mão com milhoes de Kms, que bebem mais oleo que gasoleo com os suportes no tejadilho carregando as biclas da familia toda, que foram dar um passeio pela ciclovia e que na 2ª feira a seguir lá vão para as filas de transito e levar os meninos a porta da escola, só não os podendo levar no carro até dentro da sala de aula… os meninos e meninas cá não vão a pé para a escola, vao as d. pipis leva-los e busca-los, vale tudo a porta da escola, estacionamento selvagem e transito caotico a porta das escolas… país de tesos e pelintras com a mania que são ricos…

  2. Não esquecer que o discurso político do governo holandês acerca dos estados da Europa do sul está imbuido da ética da responsabilidade (financeira) de forma catequética e de acordo com os interesses estritos do seu sector financeiro. Como fragmento desse discurso está a dissolução de direitos e serviços públicos, entre os quais se encontra o transporte público.

  3. Embora não seja o tema mais quente do momento , acho este post muito interessante.
    Não é preciso ser muito inteligente para compreender que, de momento, a mobilidade nas grandes metrópoles só pode passar pelo transporte público e uma infraestrutura de ciclovias funcionais, que realmente se possam utilizar no dia a dia (e.g. ir para o trabalho, ir às compras…) e não só para um passeio de fim de semana à beira mar/rio.
    Para alcançar a sustentabilidade financeira do sistema de transportes públicos há dois caminhos que se podem seguir. O de aumentar a qualidade da infraestrutura e reduzir/manter o preço dos bilhetes, mas penalizar o transporte individual (introdução de taxas de congestionamento, aumento do preço do estacionamento no centro… etc). Estas receitas deveriam funcionar como um estabilizador automático do sistema: mais transporte individual -> receitas das taxas compensam défice das empresas de transportes; menos transporte individual -> mais pessoas a utilizar transporte público -> mais bilhetes vendidos.
    O governo seguiu exactamente o caminho contrário. Redução do investimento (diminuição da frequência/qualidade), aumento dos preços, mais transporte individual… aqui vamos nós a caminho do terceiro mundo.
    Era interessante saber qual o impacto no PIB desses problemas que a Raquel mencionou (horas perdidas e gastos de energia/combustível nos engarrafamentos, custos para a saúde do stress/poluição…). Tenho um sentimento que se equilibrava a balança externa mudando o paradigma da mobilidade nas cidades Portuguesas. Para além de muitas outras vantagens, como a melhoria da qualidade de vida.
    Vivo na Alemanha mesmo na fronteira entre Baden-Württemberg e a Baviera. Venho quase todos os dias de bicicleta para o trabalho. Tenho uma mota e um carro que normalmente estão estacionados à porta de casa.

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