Limite das análises economicistas

Excerto do artigo «A Vertigem da Decadência Económica…», pelo historiador Valério Arcary, publicado em Quem Paga o Estado Social em Portugal?

(…), não foi um tema especialmente polémico na historiografia reconhecer que as crises económicas nas sociedades contemporâneas urbanizadas foram, tendencialmente, parteiras de conflitos sociais e, em circunstâncias mais raras, de situações revolucionárias. Recessões são interrupções destrutivas. São, potencialmente, um momento de máxima vulnerabilidade do capitalismo. Os choques na capacidade produtiva geram mudanças imediatas nas relações de forças, porque a saída da crise aumenta a competição entre as empresas e os Estados e exige um aumento da exploração dos trabalhadores. Quando estes não encontram condições de se defender, o sistema ganha tempo histórico para se recuperar.

O limite histórico do capital foi e permanece sendo o limite de sua valorização. A sua expansão dependeu da possibilidade de extração de mais-valia pela desvalorização salarial ou pelo aumento da intensidade do trabalho; da possibilidade de diminuir os custos da reprodução do trabalho pelo barateamento das mercadorias que respondem pelo consumo popular; da capacidade de aumentar a produtividade pela substituição do trabalho vivo por trabalho morto; da expansão do mercado mundial; e do aumento da financeirização.

Não há, todavia, inovação técnica que, por si mesma, seja suficiente para preservar o capitalismo. A introdução de novas tecnologias não permite inverter a queda da taxa média de lucro que regula a pulsação do capital. Os limites de expansão do mercado mundial estão-se a esgotar nas últimas fronteiras na Ásia e África. Os perigos de uma financeirização desregulada manifestaram-se de forma aguda nesta última crise económica.

A exportação dos custos das crises para os países periféricos foi um dos recursos históricos dos países centrais para preservar a governabilidade no centro do sistema. Mas teve e tem, também, os seus limites. As elites nacionais nos países semicoloniais, sobretudo naqueles em que a maioria da população já foi urbanizada, não podem arriscar confrontos sociais com os seus trabalhadores sem cálculos políticos cautelosos. Não existe, portanto, uma saída estritamente económica para as crises. A saída de cada crise depende de um desenlace político-social. Na época contemporânea, essa possibilidade de aumentar a extração de mais valia foi condicionada, portanto, pelo grau de radicalização da luta de classes. O capital aprendeu com a experiência das crises económicas anteriores, e teme os perigos do desgoverno. A classe trabalhadora não pode, também, assistir à destruição de suas conquistas sem feroz resistência. O desenlace desta crise permanece, portanto, ainda em aberto.

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